O primeiro encontro do chamado Conselho de Paz – organização criada pelo presidente dos Estados Unidos, que a si próprio atribuiu a condição de líder vitalício – ficou marcado pelo anúncio de que o grupo coletou cerca de 17 mil milhões de dólares para a reconstrução de Gaza, na Palestina. “Tenho o prazer de anunciar que o Cazaquistão, o Azerbaijão, os Emirados Árabes Unidos, Marrocos, o Bahrein, o Qatar, a Arábia Saudita, o Uzbequistão e o Kuwait contribuíram com mais de sete mil milhões de dólares para o pacote de ajuda”, disse Trump. “Os Estados Unidos farão uma contribuição de 10 mil milhões para o Conselho da Paz.” A FIFA, entidade máxima do futebol, também ajudará a arrecadar 75 milhões para projetos relacionados com o futebol em Gaza, disse Trump.

Em fevereiro do ano passado, o Banco Mundial, a ONU e a União Europeia adiantaram que a reconstrução de Gaza custaria entre os 50 mil e os 70 mil milhões de dólares, o que atendendo a que praticamente nenhuma estrutura escapou ilesa da invasão israelita, parece ser uma verba muito conservadora.

Por outro lado, cinco países comprometeram-se a enviar tropas para uma força de segurança internacional a enviar para Gaza, disse o comandante da força durante a reunião do Conselho. “Tenho o enorme prazer de anunciar que os primeiros cinco países se comprometeram a enviar tropas para servir na ISF (Força Internacional de Estabilização) – Indonésia, Marrocos, Cazaquistão, Kosovo e Albânia. Dois países comprometeram-se a treinar policiais – Egipto e Jordânia”, disse o Major-General do Exército Jasper Jeffers. O militar também afirmou que as Forças de Segurança Iraquianas (ISF) começariam por mobilizar-se em Rafah, no sul de Gaza, treinariam a polícia local e “expandiriam setor por setor”. O plano a longo prazo é utilizar 20 mil soldados das Forças de Segurança Israelitas (ISF) e treinar 12 policiais, disse. Segundo indicações recebidas no encontro, cerca de dois palestinianos terão manifestado interesse em juntar-se às forças da ordem.

Num discurso que durou 45 minutos, Trump teve ainda oportunidade de voltar ao tema da Irão, que voltou a ameaçar com a guerra se se atrever a não assinar o acordo nuclear que está em debate entre os dois países. O presidente dos Estados Unidos falou ainda da Ucrânia, para repetir que o problema da guerra é mais difícil de resolver que o que tinha antecipado, não tendo dado a certeza que as negociações estão a correr como ele próprio desejava.

Por outro lado, o presidente norte-americano disse que “muitos dos nossos amigos na Europa estão presentes aqui hoje, e estamos ansiosos para que se tornem membros plenos. Todos eles querem tornar-se membros plenos”, disse Trump, acrescentando que teve uma “ótima resposta” da Europa. Recorde-se que países como a Itália e Portugal estão timidamente representados como observadores, o mesmo acontecendo com a União Europeia, na pessoa da sua comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Suica. Apesar desta magra representação, a Comissão não se livrou de ouvir críticas de vários quadrantes.

Depois de, esta quinta-feira, o grupo parlamentar dos socialistas e democratas (S&D), onde milita, por exemplo, o Partido Socialista português, foi a vez de o governo francês ter acrescentado a sua posição, que seguia no mesmo sentido. A França disse estar surpreendida com o envio da representante da Comissão Europeia ao Conselho da Paz, alegando que este não tinha mandato para representar os Estados-membros, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores francês. “Em relação à Comissão Europeia e à sua participação, na verdade estamos surpreendidos, pois a Comissão não tem mandato do Conselho para participar”, disse Pascal Confavreux.

“O nosso objetivo é claro: ação coordenada, governança responsável e resultados tangíveis para o povo palestino”, escreveu Suica nas redes sociais antes da reunião. A Comissão defendeu a presença de Suica, considerando-a em consonância com seu compromisso com a implementação do cessar-fogo e como parte dos esforços da instituição para apoiar a recuperação e a reconstrução de Gaza.

As reservas europeias surgem, entre outras causas, porque alguns países creem que o Conselho possa evoluir para uma espécie de ONU 2.0. Sabendo desse incómodo, Trump disse no seu discurso que irá falar pessoalmente com o secretário-geral da organização, António Guterres, com quem, de facto, nunca estabeleceu um contacto minimamente cordial. Guterres disse em janeiro, comentando a criação do Conselho, que todos os países são livres para se associarem da forma que quiserem.

Entretanto, enquanto decorria o evento – que Trump disse que se repetirá na Noruega algures no tempo, apesar de o país não contar aderir à organização – ficou a saber-se que Trump espera que o uso da força para desarmar o Hamas não seja necessário. E recordou que o grupo radical prometera desarmar-se e entregar as armas na sua posse; “e parece que eles vão fazer isso, mas teremos que esperar para ver”. Alguns países doadores manifestaram preocupação com o facto de que divergências sobre o desarmamento do Hamas possam levar Israel a retomar uma guerra em grande escala no enclave. Em declarações feitas em Israel no início da reunião, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que não haverá reconstrução da Faixa de Gaza antes do desarmamento do Hamas. “Muito em breve, o Hamas enfrentará um dilema: desarmar-se pacificamente ou ser desarmado à força. E há uma coisa que prometo: Gaza será completamente desmilitarizada. Gaza não representará mais uma ameaça para Israel.”

Em Gaza, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, afirmou que qualquer força internacional deve “monitorizar o cessar-fogo e impedir que a ocupação israelita continue a sua agressão”.