O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse numa reunião de emergência do Conselho de Segurança que foi “desperdiçada” uma oportunidade para a diplomacia, o que lamenta profundamente. Guterres referia-se às negociações em torno do acordo nuclear que os Estados Unidos e o Irão mantinham indiretamente – por via do representante de Omã – que foram mantidas ao mesmo tempo que uma das partes, os Estados Unidos, colocavam no terreno forças militares que acabaram por ser usadas este sábado para um ataque à outra parte, o Irão.

Guterres afirmou ainda não estar em posição de confirmar as notícias israelenses sobre a morte do Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei. “A ação militar acarreta o risco de desencadear uma série de eventos que ninguém pode controlar na região mais instável do mundo”, disse, classificando a situação no terreno como “muito fluida”. “Há muitos relatos não confirmados”, disse Guterres.

“Os ataques teriam causado um número significativo de vítimas civis. Segundo os meios de comunicação iraniana, um ataque aéreo matou pelo menos 85 pessoas e feriu muitas outras numa escola feminina em Minab, província de Hormozgan, e uma escola em Teerão também teria sido atingida, causando duas mortes.” E referiu que 89 pessoas ficaram feridas nos ataques subsequentes do Irão contra Israel, de acordo com fontes israelitas.

António Guterres disse que “a ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irão apresenta o risco de desencadear uma série de acontecimentos que ninguém consegue controlar na região mais volátil do mundo”. Guterres condenou tanto os ataques israelitas e norte-americanos ao Irão como os ataques iranianos de retaliação na região. “A ação militar está a alastrar rapidamente à região, criando uma situação cada vez mais volátil e imprevisível e aumentando o risco de erros de cálculo”, acrescentou o responsável máximo das Nações Unidas, reiterando o seu apelo para “um cessar-fogo imediato”.

Nas declarações ao longo do encontro, a maioria das intervenções enfatizou o enorme perigo que a intervenção armada da dupla EUA-Israel transmitiu a uma região que é, neste momento – como desde há décadas – a mais instável do planeta, capaz de induzir tensão em seu redor e de algum modo em todo o mundo. A intervenção da Grécia lembrou que a tensão criada na região vai ter grandes repercussões no já de si pouco estável contexto mundial. Num quadro em que todos os analistas esperam um salto notável do preço do petróleo quando os mercados reabrirem na próxima segunda-feira, será o comércio mundial, já desestabilizado pelas tarifas impostas pela administração Trump, a sofrer o primeiro impacto. Principalmente se o Irão insistir, como provavelmente fará, em fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa uma percentagem considerável do petróleo que alimenta a economia global.

Uma nota à margem: tal como disseram vários analistas, o aumento do preço do petróleo é uma excelente notícia para a Rússia, que assim ganhará um ‘balão de oxigénio’ importante para continuar a financiar o seu esforço de guerra contra a Ucrânia.

Mas, apesar das críticas que pudessem estar implícitas à atuação dos Estados Unidos e de Israel, o Irão foi considerado responsável direto pelo sucedido. O representante do Panamá, por exemplo, quis deixar claro que o Irão não se preocupou em aceitar as conversações como um meio eficaz e ‘saudável’ para diminuir a tensão no Médio Oriente. Ou seja, de algum modo, o Conselho parecia estar convencido – como o estão um sem número de analistas – que nenhuma das partes envolvidas nas conversações sobre a estratégia nuclear iraniana estava de ‘boa fé’ na mesa. Ou seja, as negociações foram mantidas para ganhar tempo e não para que as partes chegassem a um acordo.