As fábricas de componentes automóveis na região centro do país foram severamente danificadas pelo temporal. Mas mal começam a contabilizar prejuízos e já estão numa corrida contra o tempo para salvar o equipamento que sobreviveu.

É que muita maquinaria e sistemas eletrónicos estão sujeito ao mau tempo por as infraestruturas das fábricas terem sido danificadas pela tempestade Kristin. Isto é, sem telhados ou paredes, ficam completamente expostas à intempérie que aí vem: a tempestade Leonardo.

“Temos fábricas que ficaram completamente destruídas, em termos de edifícios e equipamentos. Vão demorar mais tempo a por-se de pé e a resolver o problema da produção. Vão ter que reiniciar de novo”, disse ao JE José Couto, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA).

Em segundo, há empresas que têm “estragos severos”, mas com “mais ou menos tempo conseguem recuperar a sua atividade. Isto implica recomeçar em algumas áreas, alterar equipamentos, para quem possam arrancar num breve prazo”.

Em termos de fábricas destruídas, estima que sejam quatro ou cinco unidades. Em termos de empresas gravemente atingidas, serão uma dúzia.

As áreas afetadas são o distrito de Leiria, mas também o distrito de Coimbra e o distrito de Aveiro.

Em terceiro, há “outras empresas que tiveram prejuízos que estão a conseguir ultrapassar. Algumas têm problemas de produção porque não têm energia. Só agora apareceu energia na zona industrial da Marinha Grande”.

“Isto tem implicações. São equipamentos sensíveis de eletrónica que reagem mal ao convívio com a chuva”, revela o responsável ao JE. “Estão a tentar desbloquear situações de exposição às intempéries de equipamentos e de infraestruturas. A chuva e a humidade deterioram os equipamentos”.

“Há empresas que já resolveram os seus problemas. Outras falta-lhes chapas, outras mão-de-obra”, resume.

Para os clientes destas fábricas, “vai haver atrasos ou têm que encontrar alternativas”.

Os próprios trabalhadores sofreram na pele com o temporal, obrigados a “ficar em casa a resolver os problemas da sua família e habitação”.

A Estrutura de Missão criada pelo Governo para lidar com a crise na região centro já está informada da situação que afeta a fileira automóvel. “Está a trabalhar com foco para resolver esse problema” de exposição dos equipamentos e falta de infraestruturas, estando focados em “tapar ou proteger as fábricas”, revela José Couto.

A maioria dos clientes destas fábricas situa-se em “Espanha, Alemanha, França, Inglaterra”.

“Temos um slogan: 98% dos veículos automóveis produzidos na Europa tem um ou dois componentes fabricados em Portugal”, rematou.

O líder da AFIA também recordou que algumas destas fábricas têm projetos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e teme agora pelo destino destes fundos. “Preocupa-nos muito porque já há uma limitação do ponto de visto do tempo. É preciso usar o dinheiro no tempo certo. Temos muitos projetos em execução, temos projetos que perderam os investimentos já feitos… vamos ter que resolver isso. O Governo deve falar com Bruxelas para alterar prazos”.

Neste momento, ainda não há estimativa de prejuízos.

Sobre se devem ser usados fundos do PRR para pagar prejuízos, limita-se a dizer que “não interessa de onde vem o dinheiro, interessa é que esteja disponível, que seja usado de forma rápida, com eficiência”.

A AFIA revela que tem tido “muita dificuldade em falar com as pessoas”, por problemas nas comunicações como telefone fixo, telemóvel ou internet.

A fileira dos componentes automóveis vendeu 14,7 mil milhões de euros em 2024, com 12,2 mil milhões a terem origem nas vendas no estrangeiro. Nesse ano, Espanha e Alemanha foram o principal destino das exportações, com 28% e 23% das vendas, respetivamente. Na Europa ficam 88% dos componentes produzidos no país.

O setor emprega mais de 63 mil trabalhadores, empregando 9% da indústria nacional. A fileira pesa 5% no PIB nacional e pesa 15% nas exportações de bens.