Filipa Saldanha, Directora de Sustentabilidade do Crédito Agrícola, explica o papel do banco na transformação sustentável e os passos que a própria instituição tem dado nesse caminho.
Como é que a estratégia ESG do Crédito Agrícola sai do papel e é integrada, na prática, no momento de avaliar e aprovar um pedido de financiamento?
É um caminho que temos vindo a percorrer já há alguns anos e que exige uma forte coordenação entre as equipas de gestão de risco, análise de crédito, negócio, sustentabilidade e tecnologia. A prioridade atual reside na recolha estruturada e em escala de informação ESG junto dos nossos clientes, incluindo sobre pegada de carbono, exposição a riscos físicos, indicadores sociais e práticas de governance. Embora esta informação ainda não esteja integrada, de forma automática, nos modelos de risco e concessão de crédito, já é utilizada para aferir o grau de maturidade dos nossos clientes na jornada de sustentabilidade, identificar prioridades de negócio no apoio à transição climática e social e, em casos mais extremos, identificar linhas vermelhas.
Embora o CA tenha um posicionamento claro no apoio à transição, priorizando a bonificação em detrimento da penalização, sentimos a necessidade de incorporar princípios de exclusão e limitação setorial na nossa norma de concessão de crédito. Isto dito, existem linhas vermelhas bem definidas nas dimensões ambiental, social e de governance, que orientam as decisões de financiamento e reforçam a coerência entre os valores que defendemos e os projetos que financiamos.
No caso das grandes empresas, o escrutínio é bastante elevado e analisado caso a caso, com métricas objetivas e contratualizadas. Por exemplo, para financiamentos verdes (green loans) seguimos o nosso framework de emissão obrigacionista que inclui critérios de elegibilidade claros e validados por uma Second Party Opinion. No caso das Sustainability-Linked-Loans, operações em que as condições de financiamento estão associadas a metas ESG específicas, estas devem: i) ser materiais para o negócio do cliente e, sempre que possível, alinhadas com os objetivos estratégicos do banco; ii) estar alinhadas com referenciais científicos, como a SBTi, e com compromissos internacionais, como o Acordo de Paris, sendo ambiciosas face à baseline da empresa e ao contexto setorial; iii) ser mensuráveis, auditáveis e sujeitas a validação externa, por exemplo através de Second Party Opinion.
De que forma o banco utiliza produtos financeiros específicos para incentivar os agricultores a adotar práticas mais sustentáveis e resilientes às alterações climáticas?
O setor agrícola enfrenta hoje um duplo desafio: produzir mais e melhor, num contexto climático mais exigente. O financiamento tem aqui um papel decisivo. Dispomos de linhas transversais – como soluções protocoladas com garantia pública nas áreas da eficiência hídrica e energética – que permitem apoiar investimentos em rega eficiente, energias renováveis ou modernização de infraestruturas.
Especificamente para o setor agrícola, disponibilizamos instrumentos como linhas para antecipação de ajudas, aquisição de fatores de produção ou leasing de máquinas e equipamentos. Estes mecanismos são fundamentais para garantir liquidez e capacidade de investimento. Mas estamos a ir mais longe. Num contexto de fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes e de maior exigência ao nível das métricas ESG ao longo da cadeia de valor, a adaptação deixou de ser uma opção – é um imperativo económico.
“Num contexto de fenómenos climáticos extremos cada vez mais frequentes e de maior exigência ao nível das métricas ESG ao longo da cadeia de valor, a adaptação deixou de ser uma opção – é um imperativo económico.”
Nesse sentido, queremos reforçar o apoio a três eixos prioritários:
- Agricultura climate-smart, promovendo eficiência hídrica, rega inteligente, culturas mais resilientes e redução de fertilizantes e fitofármacos;
- Agricultura regenerativa, financiando práticas que recuperam a saúde do solo, promovem biodiversidade e contribuem para o sequestro de carbono, como coberturas vegetais ou rotação de culturas;
- Inovação e tecnologia, apoiando a adoção de sensores, estações meteorológicas, plataformas digitais, inteligência artificial ou robótica, que aumentam precisão e produtividade.
Complementarmente, sabemos que a transição não se faz apenas com capital. Por isso, investimos também em capacitação, em contexto de proximidade e de forma customizada. O Programa CA Agro Transição ou as ações de demonstração em agricultura regenerativa que promovemos junto de agricultores, organizações de produtores e cooperativas são um exemplo de como procuramos aproximar conhecimento da realidade do terreno. Financiamento e conhecimento são, para nós, duas faces da mesma estratégia.
Numa era de digitalização, como é que o banco aplica o pilar Social do ESG para garantir a inclusão financeira em regiões onde é a única instituição presente?
O pilar social faz parte do ADN do Crédito Agrícola. Em muitas regiões do país somos a única instituição financeira com presença física. Isso não é apenas uma vantagem competitiva – é uma responsabilidade. A digitalização é essencial para ganhar eficiência e melhorar o serviço, mas não pode gerar exclusão. Seguimos, por isso, um modelo híbrido: investimos fortemente em canais digitais e tecnologia, mas mantemos uma rede de proximidade e acompanhamento personalizado, especialmente em territórios de baixa densidade.
“A digitalização é essencial para ganhar eficiência e melhorar o serviço, mas não pode gerar exclusão. Seguimos, por isso, um modelo híbrido: investimos fortemente em canais digitais e tecnologia, mas mantemos uma rede de proximidade e acompanhamento personalizado, especialmente em territórios de baixa densidade.”
A inclusão financeira significa garantir acesso a serviços bancários essenciais, promover literacia financeira e desenvolver soluções ajustadas à realidade local — seja de agricultores, pequenas empresas ou famílias. Para nós, sustentabilidade social traduz-se numa ideia simples: nenhuma comunidade deve ficar para trás.
Como tem sido o processo de adaptação dos vossos sistemas de gestão de risco para cumprir as novas exigências de transparência e evitar o risco de greenwashing?
O processo tem sido estrutural e transversal a toda a organização. Estamos a integrar de forma progressiva os riscos climáticos e ambientais nos nossos modelos de risco, quer na vertente de risco físico – associado a fenómenos extremos como secas ou inundações – quer na vertente de risco de transição, ligada a alterações regulatórias, tecnológicas e de mercado.
Hoje já dispomos de uma caracterização da nossa carteira de crédito segmentada por tipologia de risco climático – físico, de transição – e ambiental. Trata-se, nesta fase, de uma análise agregada, baseada em proxies setoriais e geográficos, assim como dados científicos que nos permite obter um score climático e ambiental automático e definir uma orientação estratégica por segmento.
O desafio passa por complementar esta fotografia com dados reais de clientes, muito útil para avaliar a capacidade adaptativa dos nossos clientes às alterações climáticas, e aferir de forma prudente e bem informada os riscos a gerir. Com uma análise em proxies, aferimos a exposição; com uma análise granular, aferimos a vulnerabilidade. O risco climático resulta precisamente da interação entre o perigo, a exposição e a vulnerabilidade associadas aos eventos extremos.
Isto dito, sem dados robustos e auditáveis, tornar-se-á muito difícil para os bancos medirem os riscos ambientais, sociais ou de governance associados às suas carteiras, o que pode resultar na atribuição de spreads mais elevados, condições de financiamento menos vantajosas ou mesmo na recusa do crédito. Isso exige recolha sistemática de dados, desenvolvimento de métricas internas e uma articulação cada vez mais estreita entre as áreas de risco, crédito, sustentabilidade e reporte.
Paralelamente, reforçámos os mecanismos de governação e validação da informação ESG. O objetivo é assegurar consistência entre o que reportamos, o que financiamos e o que comunicamos. A melhor forma de evitar o greenwashing é garantir que cada compromisso está suportado por dados, metodologias claras e mecanismos de verificação. Mais do que cumprir requisitos regulatórios, queremos assegurar que a informação é robusta, comparável e credível – para os clientes, para os supervisores e para o mercado.
Para além do financiamento a terceiros, que medidas concretas foram aplicadas na governação interna para reduzir a pegada ecológica das operações do próprio Grupo?
Ao nível da governação, a sustentabilidade está integrada nos órgãos de decisão, com acompanhamento regular e transparente dos indicadores ESG, e a remuneração variável do conselho de administração incorpora indicadores-chave de desempenho de sustentabilidade. Adicionalmente, promovemos ações de sensibilização e formação para colaboradores, reforçando o alinhamento de toda a organização com as metas ambientais estabelecidas. Neste âmbito, importa salientar o papel fundamental dos mais de 150 Embaixadores de Sustentabilidade do Grupo que, para além de serem mobilizadores internos, são também uma peça essencial para transferir e multiplicar conhecimento entre departamentos, caixas associadas e empresas do Grupo.
Na gestão interna das operações, mantemos o compromisso de reduzir as emissões em 60% até 2030. Para tal, estruturámos a gestão sustentável interna em quatro eixos estratégicos, com mais de 60 iniciativas em curso, incluindo programa de mobilidade limpa, promoção de práticas de economia circular, integração de critérios sustentáveis na cadeia de fornecedores, e aumento da produção e consumo de energia renovável, bem como soluções de poupança energética nos edifícios.