
A ordem executiva emitida pelo Governo dos Estados Unidos em 11 de dezembro de 2025, instruindo a Securities and Exchange Commission (SEC) a apertar a regulação dos consultores de voto e a rever a Regra 14a‑8 sobre propostas de acionistas, foi amplamente interpretada como uma mudança estrutural no equilíbrio de poder entre investidores e gestores. Segundo alguns comentadores, tratar‑se‑ia de uma transição do capitalismo dos acionistas para um capitalismo gerencial. Essa leitura, porém, falha o alvo.
O que está em causa não é um ataque ao capitalismo dos acionistas enquanto tal, mas uma ofensiva política contra o chamado “capitalismo dos stakeholders” – ou, mais concretamente, contra acionistas institucionais que promovem propostas relacionadas com clima, remuneração ou diversidade, equidade e inclusão (DEI). Para Donald Trump e os seus apoiantes, estas iniciativas fazem parte de uma agenda woke que, na sua perspetiva, se sobrepõe indevidamente aos objetivos económicos tradicionais das empresas.
É verdade que vários grandes gestores de ativos, incluindo a BlackRock, recuaram nos últimos anos em compromissos públicos relacionados com ESG e neutralidade carbónica. Ainda assim, continuam a exercer uma influência significativa na governação das empresas, em larga medida devido à concentração acionista nos chamados Big Three – BlackRock, Vanguard e State Street – que detêm participações relevantes na maioria das empresas cotadas norte‑americanas.
A resposta da administração Trump a esta realidade não reforça a governação corporativa; pelo contrário, enfraquece‑a. A boa governação assenta em mecanismos de controlo e equilíbrio que limitam a concentração de poder e asseguram a responsabilização da gestão. Ao reduzir a capacidade dos acionistas de submeter propostas e ao enfraquecer o papel dos consultores de voto, o poder desloca‑se da esfera dos investidores para a gestão – não por razões económicas ou de eficiência, mas por motivações ideológicas. O risco é claro: conceder às administrações um “cheque em branco”.
Não existe evidência empírica de que a crescente atenção dos investidores institucionais a matérias não financeiras tenha prejudicado o desempenho das empresas norte‑americanas. O crescimento mais fraco do S&P 500 desde o início dos anos 2000 explica‑se sobretudo por choques macroeconómicos e financeiros excecionais – a bolha das dot-com, a crise financeira global e a pandemia – e por falhas estruturais dos mercados, como a sobrevalorização de ativos, a assunção excessiva de riscos e a fragilidade da supervisão. Culpar as políticas ESG ou DEI por estes resultados é uma leitura simplista e enviesada.
Também não há prova conclusiva de que o ESG garanta uma sobreperformance financeira sustentada. Mas essa não é a questão central. O verdadeiro debate não é se o desempenho financeiro é afetado, mas se esse desempenho é alcançado de forma sustentável, responsável e compatível com o interesse de longo prazo das próprias empresas.
Na Europa, esta distinção é cada vez mais clara. A decisão recente de grandes fundos de pensões holandeses de retirarem investimentos da BlackRock, ainda que simbolicamente modesta, revela uma divergência crescente entre a abordagem europeia e a norte‑americana à governação corporativa e ao investimento responsável.
É inegável que, para muitos, a ênfase dada às questões de Diversidade, Equidade e Inclusão nos últimos 10 a 15 anos excedeu o razoável. Mas rejeitar excessos não implica abandonar o princípio fundamental de que as empresas devem ser geridas numa perspetiva de longo prazo, integrando interesses legítimos de uma base alargada de stakeholders. Colocar esse princípio em causa por razões ideológicas não fortalece o capitalismo – fragiliza‑o.