Os Estados Unidos receberam mais de 50 países para debaterem o tema da gestão dos minerais raros (também conhecidos como terras raras), com o objetivo de aumentar o acesso a minerais críticos, numa tentativa de diminuir o controlo da China sobre o mercado mundial daqueles produtos. A reunião ocorreu depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter lançado a constituição de um stock estratégico de minerais críticos, a que chamou Project Vault, financiado por 10 mil milhões de dólares provenientes do Banco de Exportação e Importação dos EUA e por mais dois mil milhões vindos de financiamento privado. Entre os presentes estão os países do G7 – Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – bem como da União Europeia, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Índia, Tailândia e República Democrática do Congo.

A China tem exercido forte domínio sobre o processamento de muitos minerais raros, tendo-os mesmo transformado, na sequência das tarifas impulsionadas por Trump, numa arma geoestratégica. Ainda recentemente, a China impôs restrições à venda destes componentes para os Estados Unidos como forma de obrigar Trump a moderar-se nas tarifas impostas à China– o que, aliás, resultou. Por outro lado, o aumento dos controlos de exportação por Pequim no ano passado causou atrasos na produção de diversos artigos e a paralisações de fabricantes de automóveis na Europa e nos Estados Unidos. O excesso de lítio gerado pela China paralisou os planos de expansão da produção nos Estados Unidos.

Washington e os seus parceiros estão a avaliar medidas que incluem alinhar incentivos comerciais e de investimento, incentivar novas capacidades de mineração e processamento fora da China e explorar intervenções no mercado, como preços mínimos, stocks estratégicos e restrições à exportação, para reduzir a influência de Pequim sobre as cadeias de abastecimento vitais, para a produção avançada e a segurança.

“Acho que isto é o reconhecimento por parte dos Estados Unidos de que devem agir em conjunto com outros para reduzir a sua vulnerabilidade em áreas onde a China tem domínio de abastecimento”, disse Scott Kennedy, que lidera o programa de negócios e economia chinesa no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, citado pela imprensa norte-americana.

Atualmente, a China controla a maior parte dos minerais raros do mundo, incluindo metais necessários para a fabricação de muitos produtos tecnológicos, de smartphones a aviões de combate. A China detém 60% desses minerais e processa 90% da oferta mundial. Genericamente, isso não vai ser alterado por nenhuma reunião em Washington, mas os presentes querem contrapor à China uma ação conjunta que lhes permita ter algum controlo sobre o assunto, nomeadamente em termos de preços.

Os minerais raros são minerais não combustíveis utilizados na produção de baterias, relógios, equipamentos militares e semicondutores, entre outros produtos tecnológicos. Os Estados Unidos descrevem-nos como “essenciais para a segurança económica ou nacional”, com “uma cadeia de abastecimento vulnerável a interrupções”.

Níquel, cobalto, lítio, alumínio e zinco estão entre os minerais críticos mais conhecidos. Para 12 minerais críticos, os Estados Unidos dependem inteiramente de importações. Para outros 29 minerais críticos, o país importa pelo menos metade do que necessita. Os minerais críticos também incluem 17 elementos de terras raras – 15 lantanídeos (elementos metálicos) da tabela periódica, escândio e ítrio. A China possui depósitos de pelo menos 12 deles. Os metais de terras raras possuem propriedades magnéticas especiais e são necessários para a produção de ímãs permanentes, utilizados em automação industrial, motores de veículos elétricos, geradores de energia renovável, eletrónicos e muitos dispositivos médicos.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), as reservas globais de terras raras foram estimadas em cerca de 110 milhões de toneladas em 2024. A China possui a maior quantidade de metais de terras raras e um “quase monopólio”, segundo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

No ano passado, a China começou a restringir as exportações dos 12 metais de terras raras que possui. No final de outubro, Trump chegou a um acordo comercial com o presidente chinês, Xi Jinping, à margem da cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), que decorreu na Coreia do Sul. A China concordou em suspender as restrições aos cinco metais restantes (dos 17 ao todo) por um ano, enquanto os dois países continuam as negociações comerciais. Em troca, Trump desistiu da ameaça de impor tarifas de 100% sobre os produtos chineses.

A Austrália, que também possui uma grande quantidade de metais de terras raras (é a quarta potência do mundo nessa matéria, mas apenas com a sétima parta da da China), posiciona-se como uma alternativa à China ao investir fortemente no desenvolvimento da sua própria capacidade de processamento. Em outubro, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, e Trump assinaram um acordo sobre minerais críticos que dará aos Estados Unidos acesso aos minerais em troca de investimentos.

A Gronelândia, que Trump afirmou querer anexar aos Estados Unidos, também é rica em minerais críticos, incluindo metais de terras raras. No entanto, a mineração na ilha é limitada e contestada pelos habitantes indígenas.

Em março de 2020, o Japão introduziu um sistema de armazenamento dos seus minerais de terras raras. Da mesma forma, a Coreia do Sul mantém um stock de longa data de minerais críticos, gerido pela empresa estatal Korea Mine Rehabilitation and Mineral Resources Corporation.

Em dezembro, a Comissão Europeia adotou o Plano de Ação RESourceEU para garantir o fornecimento de minerais críticos. A Comissão afirmou que também criará um Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas no início deste ano para diversificar as cadeias de abastecimento, inclusivamente por meio da formação de reservas estratégicas.

A República Democrática do Congo e o Chine são os outros dois países que fecham o top4 mundial.