As exportações de drones, que até 2021 eram “inexistentes”, tiveram um “crescimento muito rápido” nos últimos anos, sublinha o Banco de Portugal num segmento do boletim de março divulgado esta quarta-feira. Em 2025, as aeronaves não tripuladas representavam um em cada cinco euros (21%) de todo o material militar exportado por Portugal, depois de ter representado 18% no ano anterior.
Só para a Ucrânia, Portugal exportou 87,3 milhões de euros em drones em 2025, um crescimento de 164,5% face aos 33 milhões do ano anterior, como noticiou o Jornal Económico no início deste mês. Estes bens enviados para Kiev superaram sozinhos, pela primeira vez, todas as vendas para a Rússia.
O Banco de Portugal, com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística, classifica os produtos para utilização militar em cinco categorias, com a maior fatia a corresponder a “armas de fogo e suas componentes” — cerca de metade do total. Em segundo lugar, segue-se o equipamento de proteção pessoal, “representando aproximadamente um terço”.
Entre as categorias consideradas pelo Banco de Portugal, há ainda a registar, com peso residual, os “veículos blindados e navios” e as munições, mas a autoridade estatística clarifica que “esta classificação deixa de fora outros bens com potencial utilização militar — por exemplo, produtos do setor têxtil e do calçado que podem constituir-se como uniformes militares — e, em menor grau, poderá incluir bens que não têm essa utilização”.
Crescimento de 77% desde a invasão
Apesar de ter ainda não contarem muito para as exportações nacionais, os produtos com utilização militar têm tido uma subida “superior ao total” das vendas para o estrangeiro, nomeadamente após 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. “O crescimento nominal acumulado entre 2022 e 2025 foi cerca de 77%”, precisa o relatório.
O Banco de Portugal indica que, em 2024 e 2025, “o peso do conjunto de bens considerado como tendo utilização militar no total das exportações de bens foi inferior a 1%”, embora sinalize que “uma classificação mais lata destes bens, incluindo alguns bens dos setores automóvel e de vestuário e calçado, pudesse mais do que duplicar esse peso”.
A entidade liderada por Álvaro Santos Pereira afirma que “é muito difícil apurar com precisão os valores comercializados correspondentes a material militar”, uma vez que “em muitos casos a sua utilização é dual, ou seja, bens classificados numa mesma nomenclatura detalhada do comércio internacional podem ter utilização militar ou civil”.
A dificultar a análise estão ainda a forte regulação de acordos internacionais, “relacionados com embargos e sanções”, que “obedece frequentemente a autorizações das autoridades nacionais”, mas também “os padrões irregulares de encomendas, particularmente do lado das importações”.
Os Estados Unidos foram o maior destino deste tipo de exportações, com um peso de 41%, em média, entre 2021 e 2025. São seguidos por Bélgica e França, ambos com pesos médios de 14% no mesmo período, e Espanha. Apesar da crescente exportação de drones para a Ucrânia, estas estas aeronaves ainda só tiveram um peso de 5% nestes quatro anos, embora já tenham representado “perto de 12% em 2025”.
O Banco de Portugal nota ainda que o número de empresas exportadoras deste tipo de material “tem registado um aumento nos últimos anos, após uma redução marcada no período 2015–2016”, sendo que “cerca de um terço apresenta uma participação de capital estrangeiro superior a 10%” do total das respetivas empresas. A grande maioria, mais de 90%, tem produção regular e para os mesmos destinos de sempre, mas a autoridade estatística também dá conta de uma maior dinâmica das vendas “para novos mercados ou de novos produtos” desde o início da guerra da Ucrânia.
Estes produtos “não são dominantes no portfólio de exportações da maior parte das empresas identificadas”, mas, ressalva ainda, “terão ganho peso no valor total das exportações no período mais recente”.