Muito poucas pessoas lamentarão a morte de Ali Khamenei. Durante 47 anos, ocupou a cúpula de um sistema que defendeu a Revolução Islâmica através de repressão brutal, prisão e sacrifício de milhares e milhares de vidas, muitas das quais jovens. Para além das vidas perdidas, uma geração inteira viu as suas aspirações sistematicamente limitadas, as suas vozes silenciadas, o seu futuro espartilhado por uma máquina de controlo concebida para sufocar a dissidência e o pensamento independente. Para muitos iranianos, a sua partida encerra um capítulo definido não só pela violência autoritária, mas pelo sufoco da esperança.

E, no entanto, o que pode merecer um luto mais profundo não é apenas o fim de um homem, mas o desmoronamento gradual da própria ordem internacional. Estamos a viver um momento em que a hegemonia militar parece cada vez mais livre de constrangimentos, onde o poder é exercido primeiro e justificado depois, quando é justificado; onde as regras cedem perante a força; onde os Estados agem, reagem e contradizem-se sem qualquer responsabilidade. As barreiras que outrora afirmavam conter a escalada – direito internacional, instituições multilaterais, normas diplomáticas – parecem frágeis, invocadas seletivamente ou abertamente ignoradas. Num ambiente assim, o precedente torna-se mais perigoso do que a provocação e pode arriscar tornar-se uma justificação por si só. É esta erosão dos limites, mais do que a queda de qualquer governante, que marca a tragédia mais profunda do nosso tempo.

O regime iraniano pode acabar por perder um confronto militar, mas é improvável que colapse da noite para o dia. Ao contrário dos países vizinhos, onde a intervenção externa eliminou um ditador, pensamos na Líbia e na Síria, o Irão possui uma estrutura estatal profundamente enraizada, estratificada e resiliente. Não depende apenas de um indivíduo. Sim, Ali Khamenei está morto, mas o sistema mantém-se. Ele será substituído. As lutas pelo poder entre o establishment clerical e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC na sigla em inglês) são plausíveis, até inevitáveis, mas a decapitação do regime não se traduz automaticamente em mudança de regime. Nem a democracia surge por inércia ou bombardeamento.

Um artigo de Arash Azizi na “The Atlantic” menciona uma iniciativa da oposição conhecida como “Conselho Estratégico dos Republicanos no Irão.” A escolha da palavra “Republicanos” é reveladora: distancia-se da nostalgia monárquica e sinaliza um horizonte político diferente. O grupo incluirá cerca de 70 figuras políticas que operam no país, cujas identidades não foram divulgadas publicamente, mas alegadamente comunicadas aos governos dos EUA e da Europa.

Espera-se que tais iniciativas tenham sucesso. No entanto, não se deve confundir esperança com probabilidade. Ainda que novos ataques dos EUA ou de Israel eliminassem mais líderes, as forças democráticas do Irão enfrentariam enormes obstáculos para assumir o poder, especialmente na ausência de redes organizacionais robustas.

Como Jason Rezaian, o jornalista iraniano-americano que esteve detido 544 dias na prisão de Evin, argumentou com clareza e autoridade moral, que a situação tem matizes, não pode ser vista a ‘preto e branco’. Múltiplas verdades podem coexistir. Os iranianos podem sentir alívio, até alegria, pela morte de um tirano, e ao mesmo tempo rejeitar e temer uma campanha de bombardeamentos sobre as suas cidades. Podem celebrar a queda de um símbolo da repressão enquanto temem a incerteza que se seguirá. Podem desprezar um regime e, ainda assim, sentirem-se ofendidos com uma intervenção estrangeira. Ambas as coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Esta não é uma simples história do bem contra o mal. É uma história em que poder, história, trauma e aspiração se entrelaçam.

Os iranianos têm lutado por uma representação democrática genuína desde 1906, quando a Revolução Constitucional levou à criação do seu Parlamento. No século seguinte, navegaram por entre golpes, interferências estrangeiras, a queda de Mossadegh em 1953 e sucessivas décadas de autoritarismo. O impulso democrático não desapareceu. Persistiu. Maltratado, interrompido, mas nunca totalmente extinto. É um arco longo, marcado por contratempos, mas sustentado pela resiliência. Como muitos iranianos dizem, a luta não deve parar agora, só porque um dos seus principais adversários saiu de cena.

A remoção de um adversário, porém, não garante a libertação. Nem a incerteza apaga esse desejo. Se há algo que vale a pena defender neste momento é, precisamente, o espaço para os próprios iranianos moldarem o que virá a seguir, livre da tirania, mas também livre da ilusão de que as bombas, por si só, podem promover a democracia. A história raramente é binária. E o futuro do Irão também não o será.

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