Nos últimos anos, os fatores ESG (Environmental, Social and Governance) ganharam relevância em múltiplos setores, incluindo a distribuição alimentar. Segundo o World Economic Forum, ESG refere-se a três fatores centrais na medição da sustentabilidade e do impacto ético de um investimento ou operação empresarial: Ambiental/Environmental (E), Social (S) e Governança (G). Estes pilares são hoje decisivos, não só para atrair investimento, mas também para garantir a resiliência das organizações num mercado cada vez mais exigente e consciente.
Na distribuição alimentar, os ESG deixou de ser um fator diferenciador competitivo para se tornar uma base de atuação. Este setor, com a sua dimensão logística, impacto ambiental e proximidade com o consumidor final, tem uma responsabilidade acrescida. Mas também uma enorme oportunidade: ser parte ativa da construção de um modelo económico mais justo, mais limpo e mais transparente.
E de Environmental: reduzir para crescer
O impacto ambiental da distribuição alimentar é significativo, desde a emissão de gases com efeito de estufa ao desperdício de embalagens. Em Portugal, já vemos a implementação de diversas iniciativas, desde investimento em frotas elétricas e painéis solares nos armazéns, ou a aposta na economia circular e no reaproveitamento de excedentes. Estas práticas alinham-se com o European Green Deal e, apesar de Portugal se posicionar na 15ª posição (entre 29 países europeus) do Green Transition Index 2024, ainda está aquém de países como a Dinamarca ou a Holanda, onde já se recorre a blockchain para a rastreabilidade de toda a cadeia de valor.
Uma das vertentes mais promissoras, e muitas vezes subvalorizada, é a redução, reutilização e reciclagem. Reduzir o uso de embalagens, apostar em contentores reutilizáveis entre fornecedor e retalhista, reaproveitar excedentes alimentares em articulação com bancos alimentares ou startups da economia circular: tudo isto contribui diretamente para a diminuição da pegada de carbono. Estudos da Ellen MacArthur Foundation (2021) mostram que a redução de descartáveis pode gerar ganhos económicos significativos, algo já testado em programas-piloto de algumas grandes superfícies. A sustentabilidade não se limita a grandes investimentos tecnológicos, começa em decisões simples e conscientes, tomadas diariamente.
S de Social: valorizar as pessoas e as relações
A dimensão social dos ESG vai muito além da relação com colaboradores. Envolve todos os stakeholders, isto é, todos os que são parte interessada, de uma forma direta ou indireta, de uma organização e tudo o que acontece na mesma: fornecedores, clientes, parceiros logísticos, comunidades locais e até os consumidores finais. A distribuição alimentar é, por natureza, uma atividade relacional. E, por isso, o impacto das suas decisões é profundo.
Começa dentro de portas com políticas que promovam e consciencializem para uma alimentação saudável nas equipas, com formação contínua em segurança alimentar e em normas como o HACCP. E também com condições de trabalho que respeitem o bem-estar físico e mental dos trabalhadores. Mas estende-se igualmente para fora da empresa: na escolha responsável dos produtos distribuídos; na valorização de produtores locais e sazonais; no apoio a iniciativas comunitárias de combate à fome ou de educação alimentar nas escolas.
Uma empresa que promove uma cadeia alimentar mais equilibrada está a criar valor social: esse valor é hoje tão importante para a sua sustentabilidade como os resultados financeiros.
G de Governance: a ética como pilar da confiança
A governança sustenta tudo o resto, isto é: falar de “G” é falar de ética, transparência, controlo e responsabilidade. No setor este compromisso traduz-se em conhecer e certificar a origem dos produtos, na garantia de armazenamento e transporte adequados e na implementação de políticas rigorosas de avaliação de risco e controlo interno. As decisões devem ser documentadas, os procedimentos auditáveis e os processos claros para todos os envolvidos.
Na Europa há já retalhistas que usam inteligência artificial para prever padrões de consumo e otimizar rotas. Em Portugal estas soluções ainda estão em fase embrionária, mas representam um campo fértil para inovação. A boa governança não é apenas uma exigência regulatória: é uma forma de construir reputação e antecipar crises.
Há decisões que devem ser sempre tomadas, independentemente dos proveitos que podem trazer. Mas não se deve ser insensível aos benefícios evidentes que as atuações mais éticas trazem à rentabilidade dos negócios. Nada é mais precioso na vida empresarial do que a confiança gerada por condutas éticas e transparentes.
Por onde começar
A implementação dos ESG não é algo reservado a grandes empresas. No setor da distribuição alimentar, como em muitos outros setores, existe um grande potencial para melhorar práticas e gerar impacto positivo. A aposta nos ESG já não é apenas uma questão ética ou reputacional, mas uma prioridade estratégica sustentada por dados: estudos como o “Sustainable Supply Chains Report” da McKinsey (2022) demonstram que cadeias de abastecimento que adotam práticas sustentáveis conseguem reduzir custos operacionais até 15%, com impacto direto na rentabilidade. O “2023 Global ESG Survey” da EY revela que mais de 60% dos dos investidores institucionais consideram os critérios ESG decisivos nas suas escolhas.
Em Portugal já estão a ser aplicadas medidas simples: substituição gradual de frotas, redução de plásticos, integração de produtores locais e maior transparência nos processos. Se o país souber capitalizar a sua escala reduzida para testar e acelerar estas soluções, pode afirmar-se como laboratório vivo de inovação sustentável na Europa.
Adotar práticas ESG não implica, necessariamente, grandes investimentos de início. Pode começar-se com pequenas ações, desde que haja intenção, planeamento e coerência. O importante é integrar esta visão no dia a dia da empresa: tomar decisões não só com base no lucro, mas também no impacto que geram no ambiente, nas pessoas e na sociedade.
Conclusão
Implementar uma política ESG implica transformação de processos, mudança de mentalidades e, muitas vezes, investimento.
A realidade, por outro lado, nem sempre colabora. Durante a pandemia, por exemplo, as empresas viram-se obrigadas a recorrer a máscaras descartáveis, mais plásticos e embalagens individuais, medidas necessárias para garantir a segurança, mas que representaram um retrocesso temporário nos objetivos ambientais. Nesses momentos, é preciso ter a maturidade de perceber que dar um passo atrás pode ser essencial para, a seguir, dar dois à frente.
O importante é manter a visão a longo prazo. Os ESG não são uma moda ou um capricho, nem uma ferramenta de marketing. É uma estratégia de resiliência e futuro. Num setor como o da distribuição alimentar, com tantos pontos de contacto com o mundo real, a responsabilidade é maior, mas também é superior o potencial de transformação.
Cada medida, cada decisão, cada melhoria implementada aproxima-nos de um setor mais justo, mais limpo e mais consciente. Mais do que uma escolha, trata-se de medidas de boa gestão que fazem bem a qualquer empresa. Nem sempre acontece, mas neste caso fazer bem – ou fazer “o bem”, se quisermos ser moralistas – corresponde ao melhor caminho para aumentar as rentabilidades futuras.