O Brasil entrou na corrida global pelos minerais críticos, numa altura em que as grandes potências procuram reduzir a dependência da China em relação a matérias-primas essenciais para a tecnologia, defesa e transição energética. Os Estados Unidos avançaram com negociações diretas e financiamento, enquanto a União Europeia já tinha estabelecido acordos prévios com o Brasil sobre minerais estratégicos no âmbito do acordo Mercosul. Dois gigantes a tentar seduzir a “Terra do Samba”.

Segundo o Financial Times, Washington lançou o programa Project Vault, no valor de 12 mil milhões de dólares, cerca de 11,1 mil milhões de euros destinado a criar reservas estratégicas de minerais críticos e a diversificar as atuais cadeias globais de abastecimento, atualmente dominadas pela China. Os minerais visados incluem terras raras, lítio, cobre, níquel e grafite, que são fundamentais para as energias renováveis, eletrónica e defesa, constituindo peças-chave na transição energética.

Brasil aliciado a entrar na coligação internacional de minerais críticos

De acordo com a Reuters, a 4 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos negociaram diretamente com representantes do Brasil e a possibilidade deste país integrar a referida coligação internacional de minerais críticos, a qual prevê mecanismos de preço mínimo e contratos de longo prazo, proporcionado, assim previsibilidade aos investimentos. Cerca de 30 países manifestaram interesse em aderir a este “clube” de minerais críticos, incluindo vários Estados europeus, além de delegações de África, Ásia, Américas e Médio Oriente. A reunião, conhecida como Critical Minerals Ministerial, serviu para discutir a cooperação internacional, diversificação das cadeias de abastecimento e mecanismos de segurança de fornecimento.

O Brasil recebeu formalmente o convite durante uma reunião em Washington conduzida pelo vice-presidente americano, J.D. Vance, segundo o jornal brasileiro O Globo. No entanto, o governo brasileiro mantém a cautela: “O Itamaraty afirmou que está a analisar a proposta e sublinhou que o país não pretende apenas exportar matérias-primas, mas também desenvolver processamento e refinação local para agregar valor ao território nacional.”

No plano empresarial, os Estados Unidos já avançaram. Segundo a Bloomberg e a BNamericas, a Serra Verde, única produtora de terras-raras em funcionamento no Brasil, assinou em Washington um empréstimo de 565 milhões de dólares, cerca de 525 milhões de euros, com a Corporação Financeira dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (DFC). O acordo prevê a possibilidade da agência norte-americana adquirir uma participação minoritária, o que sinaliza um compromisso de longo prazo com a produção brasileira fora da Ásia. Segundo a própria empresa, citada pelo jornal brasileiro O GLOBO, o financiamento confirma a “posição estratégica única” da Serra Verde como produtora de terra raras fora da China, um aspecto sensível dado que Pequim domina não só domina a extração, como também o refino global destes minerais.

Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos da América indicam que o Brasil possui reservas potenciais de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, cerca de 23% do total mundial, ficando apenas atrás da China. Os projetos mais avançados, localizados em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, concentram 38% destas reservas e têm capacidade para produzir quase oito milhões de toneladas de óxidos. Além das terras raras, o Brasil tem reservas significativas de lítio, níquel, grafite e cobre, embora a sua participação no refino e processamento destes materiais continue limitada, segundo o portal Brasil Mineral. A exploração destes recursos oferece ao Brasil a oportunidade de atrair tecnologia e investimento industrial, bem como de criar emprego qualificado, aumentando o valor acrescentado local.

Quem pode ganhar?

Enquanto os Estados Unidos avançaram com negociações diretas e financiamento, a União Europeia já tinha incluído os minerais críticos nos acordos com o Mercosul. Segundo o El País, Bruxelas procura garantir um fornecimento seguro e sustentável de lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras, utilizados em baterias, turbinas e eletrónica. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, discutiu previamente com o presidente Lula a cooperação europeia para integrar o Brasil como parceiro estratégico. Portugal, através da sua delegação europeia, participou também nestas negociações.

Um relatório do Tribunal de Contas Europeu, citado pelo The Guardian e pela Euronews, alerta que a União Europeia corre o risco de não atingir as metas industriais e climáticas sem um acesso seguro às matérias-primas atualmente importadas da China. Por este motivo, o bloco aprovou a Critical Raw Materials Act, que estabelece objetivos de extração, processamento e reciclagem, mas reforçando a necessidade de parcerias externas. A estratégia europeia difere da americana ao focar-se em parcerias regulatórias, critérios ambientais e integração em cadeias sustentáveis, recorrendo a instrumentos como o programa Global Gateway, que apoia projetos de mineração sustentável e o desenvolvimento de cadeias de valor na América Latina e Caraíbas, incluindo o Brasil.

Analistas ouvidos pelo Financial Times destacam que a disputa entre EUA e Europa cria uma oportunidade rara para o Brasil. Com grandes reservas de terras raras, lítio, níquel e grafite, o país poderá aproveitar o seu potencial geológico para atrair investimentos, tecnologia e capacidade industrial. O desafio consiste em transformar esta riqueza em estratégia, evitando repetir o padrão histórico de exportação de matérias-primas sem lhes acrescentar valor local, ou seja, sem desenvolver uma base sólida de processamento e refinação.

No tabuleiro global dos minerais críticos, os EUA procuram rapidez e acesso imediato, a Europa foca-se na segurança e sustentabilidade, e a China tenta manter a sua posição dominante. Segundo os especialistas, o maior beneficiário poderá ser o Brasil, se conseguir transformar reservas em desenvolvimento estratégico.