Os mercados acionistas prolongaram a tendência negativa da semana anterior. Embora as quedas semanais se mantenham relativamente contidas, em torno de 1,5%, o que pode parecer pouco, mas é muitas vezes assim que os bear markets começam, de forma gradual, permitindo que quem quer vender o faça ainda a níveis relativamente elevados, ao contrário de quedas rápidas. Foi o que aconteceu no ano passado no “Liberation Day”, a 2 de abril, quando o S&P 500 perdeu cerca de 15% em apenas cinco sessões (até 9 de abril), recuperando depois todas as perdas em menos de 20 dias, antes do final do mês, quando Donald Trump adiou as tarifas por 90 dias. O principal índice acionista europeu, o STOXX Europe 600, perde 8,5% desde o início do conflito, que já leva quase um mês, enquanto o S&P 500 desvaloriza cerca de 6%.
As obrigações do tesouro norte-americano continuam em queda e o rendimento soberano a 10 anos subiu para 4,40%, o valor mais elevado desde agosto do ano passado. Já subiu mais de 40 pontos base, face aos 3,96% do dia anterior ao início do conflito no Médio Oriente, refletindo os receios de um aumento da inflação capaz de inverter a política monetária da Reserva Federal dos EUA. O rendimento a 2 anos subiu de 3,37% para 3,97%, um aumento de 60 pontos base, sendo esta taxa uma das mais relevantes para antecipar a evolução das taxas de juro do banco central dos EUA (Fed Funds Rate). A taxa a 30 anos aumentou 30 pontos base para 4,94%, mantendo-se ligeiramente abaixo do nível crítico de 5%. Esta maturidade é mais sensível ao risco de crédito do que ao risco de taxa de juro. Assim, temos uma curva de rendimentos menos inclinada, mas pressionada sobretudo pelos receios de um regresso da inflação e de juros mais elevados, e não tanto pelo aumento das probabilidades de recessão.
O contexto atual não é favorável à política da administração norte-americana de Donald Trump, que pretende mercados acionistas e obrigacionistas em alta e juros mais baixos, quando está a acontecer precisamente o contrário. Esta administração mede, em parte, a sua popularidade pela evolução dos mercados acionistas, sendo que há eleições intercalares em novembro. Por isso, os investidores esperam por notícias favoráveis, e parece que Trump procura isso mesmo ao adiar ataques e anunciar tréguas de 5 dias. Procura negociar e tentar reabrir o Estreito de Ormuz, o grande ativo geopolítico do Irão, a mais poderosa arma de pressão do regime iraniano, que ameaça o regresso em força da inflação às economias avançadas.
No entanto, é o ouro o ativo mais penalizado desde o início do conflito. Desde 28 de fevereiro, início da guerra entre EUA e Israel e o Irão, o preço do ouro já perdeu cerca de 15%. Esta descida poderá ser de curto prazo e é justificada pelo aumento acentuado do preço do barril de petróleo que ditou o regresso das expectativas de inflação elevada, à semelhança da crise energética de 2022, e consequentemente aumento das taxas de juro pelos bancos centrais. Como o ouro não gera rendimento, torna-se menos atrativo face a ativos que podem oferecer juros mais elevados. Também a forte valorização do ouro nos últimos anos permite tomada de lucros e contribui para a sua queda. Igualmente, as margin calls das últimas semanas, que, em períodos de descida dos mercados, obrigam os investidores que estão com prejuízos a venderem ativos, incluindo o ouro, para cobrir perdas noutras posições, ajudam a explicar a atual queda significativa do ouro. Todavia, no longo prazo, o conflito no Médio Oriente é mais uma fonte de incerteza, pelo que a procura de ativos geopolíticos como o ouro, que dificilmente é confiscado, deverá regressar.
Na guerra da Ucrânia, o ouro não valorizou inicialmente, acompanhando a queda das ações durante 8 meses, pressionado pela subida dos juros para travar a inflação energética. Mais tarde, regressou aos fortes ganhos, sobretudo impulsionado pelas compras da China, que depois do congelamento dos ativos russos no Ocidente, procurou diversificar os seus 3,5 biliões de dólares.