O encerramento efetivo do Estreito de Ormuz, após a escalada do conflito no Médio Oriente, está a provocar um verdadeiro teste de stress no setor segurador e ressegurador global, com impactos que vão muito além do risco marítimo. A análise é da Howden Re, que alerta para consequências sistémicas em várias linhas de negócio e até na economia mundial.

Os impactos estendem-se aos ramos de energia, violência política, aviação, crédito comercial e ao ambiente macroeconómico mais amplo, segundo a análise da Howden Re.

Apesar da gravidade do cenário, a Howden Re indica que o mercado de resseguro continua bem capitalizado e operacional, sem sinais de retirada generalizada. No entanto é esperada a reprecificação direcionada; condições contratuais mais restritivas; e maior foco na agregação de risco.

O Estreito de Ormuz é um ponto de estrangulamento crítico a nível global, por onde passa aproximadamente 20% do fornecimento mundial de petróleo e uma parcela significativa de gás natural liquefeito (GNL) todos os dias. Os acontecimentos recentes provocaram uma disrupção generalizada no tráfego marítimo, aumentos acentuados nos prémios de risco de guerra e a retirada rápida ou reprecificação da capacidade de seguro em várias linhas.

De acordo com a análise da Howden Re, este não é apenas um evento de perda numa única linha de negócio, mas um cenário com potencial para afetar todo o setor, que se desenrola em tempo real e testa a resiliência do mercado global de transferência de riscos.

David Flandro, responsável pela Análise de Indústria e Consultoria Estratégica da Howden Re, afirmou que “os impactos mais imediatos são atualmente visíveis nos riscos de violência política/guerra, marítimo e energia. No entanto, o maior desafio para a indústria pode vir, em última análise, através do que descrevemos como o canal de transmissão macro. Uma disrupção sustentada no fornecimento de energia aumentaria o risco de nova pressão inflacionária, subida das taxas de juro e possível impairment de capital em todo o setor. Essa combinação poderia afetar a capacidade de seguro de forma muito mais material do que as perdas seguradas de navios individuais ou reclamações de infraestruturas”.

Os mercados de seguros de risco de guerra marítimo registaram cancelamentos em massa e aumentos extraordinários de prémios, com a cobertura a migrar quase inteiramente para colocação viagem a viagem (voyage-by-voyage).

No setor energético, os riscos são ainda mais complexos. Infraestruturas críticas, interrupções operacionais e paragens preventivas estão a gerar forte exposição a perdas por interrupção de negócio. As seguradoras de energia enfrentam uma exposição crescente a danos em infraestruturas e interrupção de negócios em instalações downstream, offshore e de GNL na região do Golfo.

Andrew Foot, Managing Director da Howden Re, alerta que, “embora muita da atenção mediática se tenha concentrado no transporte marítimo e nas perdas já registadas, o impacto na indústria de energia é bastante mais complexo. Ataques a infraestruturas, encerramentos preventivos e interrupções prolongadas geram uma exposição significativa a interrupção de negócios, grande parte da qual pode ficar fora da cobertura tradicional de risco de guerra. Trata-se de um ambiente de risco altamente correlacionado, que antes era considerado um risco de cauda (tail risk)”.

A procura por seguros de Violência Política e Terrorismo aumentou significativamente, especialmente para ativos operados por empresas ocidentais no Golfo. Ao mesmo tempo, as seguradoras estão a tornar-se mais seletivas.

Richard Miller, Managing Director da Howden Re, explica que “a capacidade ainda existe, mas a disciplina de subscrição aumentou consideravelmente. A questão já não é se há capacidade, mas como é utilizada e estruturada.”

“Os seguradores estão a focar-se atentamente na agregação de riscos, nas fronteiras entre guerra e terrorismo e na interação entre apólices locais e tratados globais de resseguro”, diz.

As linhas de aviação, cibersegurança e relacionadas com o comércio também registam avaliações de risco elevadas, à medida que o conflito se espalha por fronteiras e cadeias de abastecimento.

Embora as perdas seguradas nas linhas de crédito comercial e risco político ainda sejam limitadas até ao momento, uma disrupção prolongada nas rotas marítimas e nos mercados de energia pode aumentar materialmente o risco de incumprimento e não pagamento.

Phil Bonner, responsável pela Global Specialty Treaty da Howden Re, defende que “o mercado de crédito e risco político tem sido resiliente, mas o Estreito de Ormuz coloca-o no centro das atenções estratégicas. Esperamos maior seletividade e foco na agregação de riscos.”

Já Sean Riordan, Managing Director de Credit & Financial Risk da Howden Re, alerta que “a manutenção de rotas seguras no Estreito é essencial para o comércio global. Uma disrupção prolongada pode gerar tensões de liquidez e crédito, afetando pagamentos, cartas de crédito e obrigações contratuais”

“Para seguradores e resseguradores, as variáveis chave são a duração e a segurança: quanto tempo a disrupção persiste e quão eficazmente as rotas são protegidas. Estes fatores determinarão, em última análise, se o stress de crédito permanece contido ou se traduz, ao longo do tempo, em sinistros nas carteiras de crédito comercial, crédito soberano e risco político”, acrescenta.

“O mercado de Crédito e Risco Político tem-se mostrado resiliente face a choques geopolíticos recentes, mas a situação no Estreito de Ormuz tem um potencial de impacto significativo. O que era uma linha estável e fiável entrou agora em foco estratégico, à medida que seguradores e resseguradores reavaliam a exposição a contrapartes, a disrupção das cadeias de abastecimento e o risco soberano. Esperamos uma alocação de capacidade mais seletiva e uma maior ênfase na agregação e na definição de eventos, à medida que o mercado se ajusta a um ambiente de risco mais complexo”, refere a Howden.