
Os agentes económicos reagem muito mal à incerteza. Da expectativa ao receio vai um passo muito pequeno e, quando as nuvens de dúvida não se dissipam, o pânico tende a instalar-se.
Foi assim na história recente com rumores de dificuldades financeiras de grandes bancos mundiais, notícias sobre tensão geopolítica, conflitos bélicos, etc.
Hoje a incerteza mudou de lugar. Uma parte crescente do risco economicamente relevante já não é externa. É interna. Depende da qualidade da governação (governance), do critério das decisões e da clareza dos processos.
Neste contexto emerge a força silenciosa da ética – não como exigência moral abstrata, mas como critério económico de previsibilidade e propósito, nas empresas e demais organizações.
O ESG (Environmental, Social and Governance) acompanha esta exigência, da narrativa reputacional ao quadro normativo. Não basta sinalizar intenções, é necessário estrutura. Do ponto de vista legal, isso traduz-se em deveres concretos de prevenção de risco (E), de due diligence de toda a cadeia de valor (S) e de deveres fiduciários reforçados de controlo interno e responsabilidade na gestão (G).
Esta é a porta de entrada (ou de saída) dos grandes decisores de capital. Family offices, fundos soberanos e grandes estruturas de investimento deixaram de operar apenas em função das métricas tradicionais de risco-retorno. As decisões de investimento incorporam, de forma cada vez mais sofisticada, critérios de elegibilidade ética e propósito institucional. Falhas de governance definitivamente afastam investimento.
Nos grandes family offices, por exemplo, o horizonte é sempre multigeracional (de longo prazo, portanto), por isso a preservação de capital depende menos da maximização financeira imediata e mais da capacidade de operar em sistemas previsíveis, com regras claras e execução coerente.
O capital sabe que não é possível eliminar a incerteza, mas retira-se de contextos onde ela resulte de decisões imprevisíveis e inconsistentes. A disputa económica deslocou-se do plano geopolítico para o plano institucional. Entre sistemas que produzem confiança e sistemas que produzem ruído. A resposta à “fúria épica” belicista deve ser a “fúria ética” organizacional, de governance como condição de acesso ao capital.
Num mundo e mercados cada vez mais seletivos, não vence quem promete mais ou é mais forte, vence quem não dispersa força. Como Arquimedes, “dai-me um ponto de apoio e levantarei o mundo”.