A passagem de Donald Trump por Davos confirmou os receios de quem ainda acredita na previsibilidade das relações internacionais. Entre o brilho e o caos, Trump encenou um novo capítulo da geopolítica da dissimulação através de uma diplomacia transacional e performativa, em que o desplante substitui a norma e o espetáculo se impõe à substância. Entre discursos marcados por imprecisões, para não dizer mentiras, e uma retórica que roça frequentemente o absurdo, o que se testemunhou não foi apenas um exercício de excentricidade, mas a execução deliberada de uma estratégia que subverte o multilateralismo e reconfigura o poder pelo ruído.
O episódio da Gronelândia serviu como o grande teste de stress desta nova era. Para alguns, a postura de Trump rotula-o como o TACO (Trump Always Chickens Out), o líder que recua perante a firmeza alheia. Para outros, foi a manifestação do negociador bully que estica a corda ao máximo ou, simplesmente, o tipo de negociador que se sente empoderado no confronto direto, desafiando os limites da soberania alheia por puro instinto de domínio. A tensão só encontrou um paliativo temporário porque os países europeus reagiram com uma dureza inédita, obrigando Mark Rutte a assumir o papel de mediador institucional através da NATO. Esse episódio, longe de ser um capricho isolado, antecipava o padrão que ganharia forma no conselho para a paz, uma diplomacia condicionada pela lealdade e pela compra de influência.
Este conselho, que agora extravasa a questão de Gaza para se tornar veículo oficial da mundivisão de Trump, poderá representar um golpe profundo na ordem jurídica internacional se o seu modelo se consolidar. Nele participam os aliados improváveis unidos pela atração de Trump, uma constelação heterogénea de líderes nacionalistas, autocratas e figuras de conveniência, enquanto a ausência dos parceiros tradicionais dos EUA é ensurdecedora. Ao desenhar uma organização onde o critério de entrada assenta na fidelidade pessoal e no pagamento de quotas, Trump ameaça marginalizar a ONU e os tratados que estruturaram o mundo no último século. Tal deriva prolonga o desmantelamento do multilateralismo, iniciado ainda antes da sua chegada à Casa Branca, mas agora privatizado e teatralizado à escala global.
O sucesso desta estratégia reside, em parte, na dificuldade dos restantes líderes mundiais em reagir ao desplante. Enquanto diplomatas de carreira tentam sustentar um quadro mental de regras e cortesias que parecem significar cada vez menos para a atual administração americana, Trump vai fazendo avançar a sua agenda através da contundência e do absurdo. É uma forma de atuação por vezes balbuciante, por vezes laudatória e por vezes agressiva, mas eficaz em desorientar quem ainda procura pontes num tabuleiro que ele próprio se esforça por desorganizar.
Em Davos, ficou a sugestão de que a diplomacia das regras poderá estar a ceder lugar à política do facto consumado, uma era em que a força e o espetáculo se sobrepõem à norma jurídica. O show caótico de Trump chegou mesmo a eclipsar um brilhante e realista discurso de Mark Carney, centrado na caracterização do momento geopolítico e na urgência de uma economia de transição, bem como as duríssimas críticas de Gavin Newsom, governador da Califórnia, que veio a Davos marcar homem a homem o ex-presidente, antecipando futuros combates no próprio coração do eleitorado americano.