Um dia depois de fontes israelitas terem admitido que o regime teocrata de Teerão não está em colapso, esta quinta-feira foi a vez de a inteligência dos Estados Unidos ter indicado precisamente o mesmo: a liderança do Irão permanece em grande parte intacta e não corre o risco de colapsar num futuro próximo. Segundo adianta a agência Reuters, são inúmeros os relatórios das ‘secretas’ norte-americanas que fornecem “análises consistentes de que o regime não corre perigo” de colapso e “mantém o controlo da opinião pública”. Ou seja, o primeiro objetivo da guerra lançada por Telavive contra Teerão e seguida por Washington está longe de alcançar o seu primeiro objetivo: derrubar o regime dos aiatolas. O segundo – acabar com o poder militar do Irão, desde logo ao nível dos mísseis – também não parece ter sido atingido, pelo menos a ver pelos ataques que continuam a sair do Irão para vários objetivos exteriores.
A declaração da parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo a qual as tropas norte-americanas já ganharam a guerra assume assim um carácter levemente circense e retira ao inquilino da Casa Branca consistência – que, aliás, os mercados começam a penalizar. De facto, quando Trump disse pela primeira vez que a vitória estava assegurada, os mercados responderam com uma descida assinalável do preço do petróleo, mas a segunda declaração no mesmo sentido, esta quarta-feira, deixou os preços indiferentemente em regime de escalada.
O ‘fantasma’ do Laylatul Qadr
Entretanto, o Irão parece apostado em alargar o perímetro da guerra, dando mostras de que tem capacidade militar para chegar bem longe das suas fronteiras: a base italiana em Erbil, Curdistão iraquiano, foi o alvo mais recente.
Mas os analistas estão especialmente receosos com os próximos dias. O Ramadão está a chegar ao fim: termina a 20 de março, com a festa Eid al-Fitr, o último dia do jejum, a acontecer no dia anterior. Mas, antes disso, a 15 de março (o próximo domingo), o Islão comemora o Laylatul Qadr (A Noite do Decreto), considerada a noite mais sagrada do ano e que marca a revelação do Alcorão ao Profeta Maomé. Num país onde a religião tem a força da crença, a direção política, a decisão militar e a condução das almas, o dia da comemoração do Laylatul Qadr pode tornar-se especialmente aliciante para uma grande operação contra os ‘infiéis’.
Coincidência ou não, o FBI alertou as agências de segurança sobre a possibilidade de Teerão tentar retaliar lançando ataques-surpresa com drones na Califórnia, de acordo com um boletim de segurança divulgado em primeira mão pela ABC News. O alerta confidencial, que tem vários dias, foi emitido pelo FBI por via do Centro Conjunto de Inteligência Regional de Los Angeles, que reúne diversas agências. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tentou minimizar o alerta do FBI: “já estávamos cientes dessas informações”, disse o democrata. “Trata-se de adotar uma postura de preparação para os piores cenários”, assegurou, levemente enigmático.
‘Boots on the ground’
Se a impossibilidade de derrubar o governo teocrático se confirmar, mas o objetivo do seu colapso se mantiver, a dupla EUA-Israel terá de alterar a estratégia. Que só tem um caminho: lançar uma ofensiva terrestre. Isso é tudo o que Donald Trump não quer, dadas as consequências internas que as inevitáveis baixas norte-americanas suscitariam no quadro político de um ano em que o presidente enfrentará eleições intercalares. E é tudo o que Israel não pode, dado que não tem um exército suficientemente numeroso para empreender semelhante movimentação.
A alternativa é manter a pressão militar vinda do exterior e aumentar a sua intensidade. Mas esse pode ser um caminho que perpetue a guerra até ao absurdo. De algum modo, dizem vários observadores, a guerra no Irão pode estar a caminho do que se passa na guerra da Ucrânia. De facto, o presidente russo tinha a intenção de invadir a Ucrânia, marchar sobre a capital, depor o governo legítimo e substituí-lo por alguém mais ‘amigável’ (um sósia do bielorusso Alexander Lukashenko e voltar rapidamente para casa. Quatro anos depois, não pôs os pés em Kiev, não substituiu nada nem ninguém e a guerra mantém-se, muitas vezes lembrando a famigerada ‘guerra de trincheiras’ de 1914-18. A guerra no Irão pode evoluir para qualquer coisa semelhante.
Mas pode também servir, lembram alguns analistas – e se se der o caso de a guerra não acabar rapidamente – para Donald Trump alegar imperativos constitucionais para se manter no poder e não marcar eleições presidenciais em 2028.