Uma guerra entre os Estados Unidos e o Irão pode introduzir “novas preocupações” de segurança no setor do transporte marítimo, alerta esta segunda-feira a empresa de rating Morningstar DBRS, podem trazer “impacto” nas rotas comerciais e na capacidade.

Já a tarifa global de 15% anunciada pela administração norte-americano, depois do Supremo Tribunal ter anulado as tarifas norte-americanas, “continua a causar incerteza” para o comércio global.

“Face a estas incertezas, as empresas globais de transporte marítimo têm geralmente apresentado expectativas moderadas para os lucros de 2026. Continuamos a observar investimentos contínuos na capacidade de transporte e nas atividades de aquisição, à medida que as empresas continuam a aumentar a sua escala e flexibilidade operacional”, salienta a Morningstar DBRS.

A mesma entidade diz ainda que embora o setor do transporte marítimo global esteja altamente consolidado, com os 10 maiores empresas e as suas respetivas alianças a controlarem mais de 80% da capacidade do setor, “continua a ser relativamente comoditizado, com a maioria das tarifas de frete indexadas e, portanto, sensíveis às pressões externas”. A Morningstar DBRS salienta que no último ano, de 13 de fevereiro de 2025 a 29 de fevereiro de 2026, o Índice Mundial de Contentores da Drewry caiu 38% para 1.919 dólares por contentor de 40 pés, face aos 3.095 dólares. “Esta quebra deveu-se a choques no comércio global, que pressionaram os volumes, bem como a uma retoma cautelosa da travessia do Canal do Suez, que aliviou algumas restrições de capacidade”, disse a mesma entidade.

“Embora esperemos que os grandes intervenientes do setor apresentem lucros mais baixos no panorama atual, esperamos também que empreguem uma alocação de capital equilibrada para manter a folga nos seus balanços. As empresas diversificadas com fluxos de receitas alternativos, como os terminais portuários e a logística, estão em melhor posição para absorver a compressão das taxas de frete. As empresas mais pequenas, mais expostas às taxas diárias, provavelmente experimentarão uma maior volatilidade do que as empresas com contratos de longo prazo e estratégias de cobertura mais robustas”, alerta a empresa de rating.

Lucros devem ser mais baixos em 2026

A Morningstar DBRS diz ainda que para 2026 estão a ser sinalizados lucros mais baixos, tendo em conta os mais recentes dados divulgados pelas empresas de transporte marítimo.

“A A.P. Møller-Mærsk A/S (Maersk) divulgou os seus resultados de 2025 no início de fevereiro, nos quais reportou que o EBITDA do grupo diminuiu 21%, para 12,1 mil milhões de dólares, face aos 9,5 mil milhões de dólares, devido a uma queda de 31% na sua divisão de transporte marítimo, ao mesmo tempo que registou um crescimento nos seus segmentos de logística e terminais. Nos resultados preliminares de 2025 da Hapag-Lloyd AG, observou-se que o EBITDA de 2025 diminuiu 28%, para 3,6 mil milhões de dólares, face aos 5,0 mil milhões de dólares, devido a uma queda média de 8% nas taxas de frete, o que mais do que compensou um aumento de 8% nos volumes.
Para 2026, a Maersk prevê um crescimento global dos contentores entre 2% e 4%, enquanto as taxas de frete serão pressionadas pelo aumento da capacidade do setor e pela reabertura cautelosa da travessia do Mar Vermelho, resultando numa projeção de EBITDA para 2026 entre 4,5 mil milhões e sete mil milhões de dólares, o que, no ponto médio, representaria uma queda de 40% face a 2025. Face à redução dos lucros, a Maersk observou que o retorno em caixa aos acionistas (dividendos e recompra de ações) em 2026 será de aproximadamente 2,1 mil milhões de dólares, menos de metade do total de 4,7 mil milhões de dólares do ano anterior, demonstrando disciplina na alocação de capital no meio da incerteza do mercado”, salienta a Morningstar DBRS.

A isto junta-se também a consolidação que está a ocorrer no setor. “A 16 de fevereiro de 2026, a Hapag-Lloyd anunciou a aquisição da ZIM Integrated Shipping Services Ltd. numa transação avaliada em mais de quatro mil milhões de dólares. Ambas as empresas são de grande dimensão, representando a quinta e a décima maiores companhias de transporte marítimo em termos de capacidade, respetivamente. Esta transação representa a consolidação contínua de um setor já concentrado, no qual os 10 maiores players globais controlam mais de 80% da capacidade total do setor”, refere a mesma entidade.

De acordo com a Morningstar DBRS a escala dos investimentos contínuos em frotas realizados por estas grandes empresas “representa um risco de excesso de capacidade que pode pressionar” as taxas de frete.

“No entanto, esperamos também que estes efeitos sejam parcialmente mitigados pela aposentação de embarcações mais antigas e menos eficientes em termos de consumo de combustível, bem como pelas iniciativas de otimização da capacidade e das rotas adotadas por estes operadores”, diz a Morningstar DBRS.

“Esperamos também que as alianças e a consolidação do sector contribuam para a eficiência, à medida que as empresas beneficiam da grande escala das suas redes. Após os choques do setor causados ​​pela pandemia de Covid-19 e pelo aumento da procura pós-pandemia, observámos a capacidade das grandes empresas de transporte marítimo de gerir os seus perfis de alavancagem numa gama relativamente consistente, apesar da volatilidade do setor observada nos últimos anos, com uma média de cerca de 1,1 vezes para os pares selecionados abaixo para o período de 2025 (de acordo com os últimos resultados disponíveis dos últimos 12 meses)”, adianta a empresa de rating.

Taxas de frete devem sofrer “pressão contínua descendente”

A Morningstar DBRS diz ainda que dadas as “contínuas incertezas” relativamente aos potenciais riscos de sobrecapacidade, ao ritmo da reabertura total do Canal do Suez e a outros riscos de segurança e comércio, esperamos observar uma “pressão contínua descendente” nas taxas de frete durante 2026.

“Prevemos que esta pressão descendente compensará largamente o crescimento moderado do volume e conduzirá a uma redução significativa dos lucros do setor. As transportadoras mais pequenas, mais expostas às taxas spot, provavelmente experimentarão uma maior volatilidade do que as empresas consolidadas com contratos de longo prazo e programas de cobertura robustos. As incertezas em relação às taxas de câmbio no atual cenário geopolítico podem também restringir certas rotas comerciais e exigir viagens mais longas, o que poderá limitar a capacidade e afetar positivamente as taxas de frete e os lucros; no entanto, os resultados de tal efeito não podem ser previstos com precisão. Face a estas incertezas e pressões externas, esperamos que as empresas globais consolidadas otimizem as suas bases de custos, operações e alocação de capital para garantir folga financeira no ambiente atual”, refere a Morningstar DBRS.