A confrontação entre Israel, Estados Unidos e Irã não era uma guerra inevitável. É, de fato, , aquilo que a tradição estratégica denomina uma guerra de escolha — um conflito que nasce não de uma ameaça existencial imediata, mas de uma decisão política deliberada de recorrer ao instrumento militar para reorganizar o ambiente estratégico. Na teoria, guerras de escolha parecem rápidas, cirúrgicas e controláveis. Na prática, tendem a produzir precisamente o contrário.

O problema começa quando potências militarmente superiores entram em confronto com um adversário menor, porém resiliente. Nesse momento, o conflito deixa de ser convencional e passa a obedecer à lógica clássica da guerra assimétrica. O lado mais forte luta para vencer; o lado mais fraco luta para impedir que o outro vença. E a história recente demonstra, com uma consistência quase pedagógica, que impedir a vitória do adversário pode ser suficiente para transformar uma campanha militar em um impasse estratégico.

Quando um país se percebe acuado – pressionado economicamente, isolado diplomaticamente e incapaz de competir militarmente em termos clássicos – a estratégia muda. As regras também. O manual deixa de ser Clausewitz e passa a ser algo mais próximo do vale-tudo estratégico: proxies regionais, ataques indiretos, pressão sobre rotas energéticas, disrupção econômica e multiplicação de crises simultâneas. O objetivo não é ganhar rapidamente, mas tornar o custo da vitória insuportável para o adversário.

É nesse ponto que surge uma ironia recorrente da política internacional contemporânea. Alguns países europeus parecem sempre prontos a oferecer apoio político a guerras iniciadas por outros, como se as lições recentes simplesmente não existissem. O Iraque foi apresentado como uma operação rápida. O Afeganistão como uma missão estabilizadora. Ambos se transformaram em décadas de custos estratégicos, instabilidade prolongada e consequências que ninguém planejou.

A prudência recomendaria, portanto, uma pergunta simples: por que razão países que não participaram da decisão inicial deveriam compartilhar os riscos de uma guerra de escolha? Apoiar automaticamente quem decide iniciar um conflito pode ser apresentado como solidariedade estratégica. Também pode ser, menos romanticamente, um convite para herdar custos que nunca foram propriamente seus sob enorme pressão.

Há ainda uma consequência mais profunda e perigosa. Sempre que Estados militarmente poderosos demonstram disposição para atacar países que não possuem dissuasão nuclear, a mensagem transmitida ao restante do sistema internacional torna-se cristalina: quem não possui armas nucleares permanece vulnerável. Assim, paradoxalmente, guerras iniciadas para conter ameaças acabam incentivando exatamente aquilo que pretendem evitar — a proliferação nuclear.

Mas talvez o elemento mais preocupante desta guerra seja outro. Em alguns segmentos da política norte-americana, o conflito começa a ser descrito em termos quase civilizacionais ou religiosos, como se representasse uma nova cruzada entre judeus, cristãos e muçulmanos. Transformar disputas estratégicas em guerras religiosas é uma das formas mais rápidas de expandir conflitos regionais para uma escala muito mais perigosa.

Quando guerras passam a ser enquadradas como batalhas de fé ou de destino civilizacional, o espaço para diplomacia desaparece. Compromissos tornam-se traições, negociações tornam-se fraqueza e o conflito assume uma dimensão existencial. A história europeia, marcada por séculos de guerras religiosas devastadoras, deveria ser um lembrete suficiente de como esse tipo de narrativa pode transformar disputas políticas em conflitos intermináveis.

Em um sistema internacional já marcado pela erosão da confiança e pela fragmentação da ordem global, a combinação entre guerra de escolha, assimetria estratégica e retórica religiosa cria um ambiente particularmente perigoso. Guerras assim raramente produzem estabilidade. Mais frequentemente, inauguram ciclos de instabilidade cujas consequências escapam ao controle daqueles que acreditavam poder moldá-las. Nenhuma aliança justifica fazer parte de tal conflito.