Os atuais desenvolvimentos têm um passado. Realidades complexas, instáveis. Importa assumir fragilidades e romper com moralismos ou radicalismos. Em direção a uma resistência informada. A um entendimento maior sobre o que é ser-se humano. Lúcido e capaz de ‘esperançar’, verbo raramente conjugado e que também remete para “confiar”. Confiar em quem? Em quê? Na realidade? Na encenação?

O trabalho de Filipa César explora os aspetos ficcionais do documentário e as políticas da imagem em movimento. Assim como questiona as fronteiras entre realidade e representação. “Meteorizações”, a primeira grande antologia de Filipa César, é, também, um regresso ao Museu de Serralves, que abre a programação de 2026 com um percurso abrangente da obra da artista portuguesa que vive e trabalha em Berlim.

Filipa César faz parte de uma geração que utiliza o vídeo como ferramenta de registo e de expressão. O seu registo ambíguo é propositado, pois aquilo que procura é tornar a perceção num campo de investigação estética e política. Desde 2011 que se dedica à investigação do cinema militante da Guiné-Bissau através do projeto coletivo Luta ca caba inda (A luta ainda não acabou), que tem por foco analisar o legado visual e político desse movimento. Este trabalho afirma-se como uma plataforma crítica sobre o passado colonial português e as suas “reverberações contemporâneas”, e consolida Filipa César como uma das vozes mais relevantes na reflexão pós-colonial em Portugal.

História, lugar e identidade
O trabalho da artista situa-se na interseção entre ficção e documentário, explorando a história, lugar e identidade através de narrativas pessoais e nacionais entrecruzadas. Daí que “Meteorizações”, com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, esteja construída em torno de “filmes, objetos e documentos que colocam em relação diferentes contextos de luta e resistência — da desobediência antifascista em Portugal às lutas anticoloniais na Guiné-Bissau.”

A prática da artista desdobra-se a partir dessas histórias, em articulação com o legado político-cultural de Amílcar Cabral, líder do movimento de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde, agrónomo e pensador anticolonial, figura fulcral na história do século XX.
É neste contexto que “Mined Soil”, uma instalação com objetos, livros, achados e uma escultura em silicone, se inscreve. Neste vídeo-ensaio entrelaça-se a documentação sobre uma antiga mina, em fase de prospeção por uma empresa canadiana e localizada na mesma região portuguesa outrora estudada por Amílcar Cabral. Resistir é o leitmotiv. Assim como reenquadrar e apropriar. Como no vídeo “The Embassy”, uma das suas primeiras obras, que se desenvolve a partir de um gesto simples, mas decisivo: um arquivista guineense a manusear um álbum de fotografias da era colonial. O que era um documento histórico neutro assume aqui uma leitura distinta. Quem fala, afinal? Quem olha? E qual a perspetiva?