O investimento dos hospitais privados em Portugal atingiu, em 2025, um valor recorde de 312 milhões de euros, refletindo uma aposta significativa na expansão de unidades, modernização tecnológica e reforço da capacidade instalada. A informação foi avançada por Óscar Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), numa apresentação que traça um retrato de um setor em maturação, mas ainda em crescimento.
Segundo o responsável, os hospitais privados realizam atualmente mais de 29 mil consultas por dia, cerca de 4 mil atendimentos de urgência e aproximadamente 800 cirurgias diárias. Estes números traduzem um aumento global da atividade na ordem dos 2% face ao ano anterior. Já no que respeita aos partos, registaram-se cerca de 16 mil em 2025, um crescimento de 8% em relação a 2024, representando perto de 20% do total nacional.
A capacidade instalada também evidencia a dimensão do setor: existem atualmente 130 hospitais privados, com 293 blocos operatórios, mais de 5 mil camas e milhares de consultórios e equipamentos médicos. No plano tecnológico, destacam-se 105 equipamentos de TAC, 111 de ressonância magnética, cerca de 500 ecógrafos e 170 aparelhos de raio-X.
Este reforço teve impacto direto na atividade de diagnóstico, com a realização de 1,9 milhões de ecografias (+8%), 806 mil TAC (+3%) e 605 mil ressonâncias magnéticas (+9%). Em contrapartida, os exames de raio-X registaram uma ligeira quebra, que Óscar Gaspar associa à diminuição das urgências.
De facto, as urgências foram o único indicador em queda, com menos 5,5% de atendimentos, totalizando cerca de 1,5 milhões. Uma tendência que poderá estar relacionada com o crescimento da telemedicina e o acesso mais facilitado a consultas programadas.
Apesar do aumento da atividade global, o recurso do Serviço Nacional de Saúde (SNS) aos hospitais privados tem diminuído, nomeadamente no âmbito do SIGIC (Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia). Em 2025, o número de cirurgias realizadas ao abrigo deste sistema caiu para 15.355, menos 2,3% do que no ano anterior, representando apenas 5,4% da atividade cirúrgica dos privados.
Óscar Gaspar considera esta evolução difícil de compreender, tendo em conta o aumento das listas de espera no SNS. “É estranho que haja mais pessoas à espera e menos recurso aos privados”, afirmou, sublinhando que existe capacidade disponível para colaborar mais ativamente na resposta à procura.
Outro fator que explica o crescimento do setor privado é o aumento do número de portugueses com seguros de saúde, que já representam mais de metade da atividade financiada. A par disso, cresce também a procura por maior rapidez no acesso e continuidade no acompanhamento clínico.
Intervindo na mesma sessão, José Roquette, presidente do Conselho Clínico da APHP, destacou a evolução qualitativa do setor. “Hoje em dia realizamos cirurgias tão complexas como as do setor público e com bons resultados”, afirmou, contrariando a ideia de que os privados se limitam a cuidados menos diferenciados.
O médico alertou, no entanto, para um dos principais desafios estruturais do sistema de saúde: a escassez de profissionais. “Precisamos de mais médicos, mais enfermeiros e mais técnicos. Este é um problema que não é apenas nacional, mas europeu”, sublinhou, defendendo uma aposta estratégica na formação e retenção de talento.
Também a área da sustentabilidade e responsabilidade social tem ganho relevância. Segundo Óscar Gaspar, os hospitais privados têm vindo a implementar medidas de redução da pegada ambiental, nomeadamente ao nível das emissões de CO2, consumo de plástico e utilização de gases menos poluentes.
Num setor que já ultrapassou a fase de crescimento acelerado, os responsáveis consideram que foi atingido um nível de maturidade. Ainda assim, mantêm a ambição de reforçar competências, investir em inovação e continuar a desempenhar um papel complementar no sistema de saúde português.