A área ardida, provocada por incêndios e queimadas ao longo de uma década, e as áreas de maior presença humana estão a condicionar negativamente a presença do lobo-ibérico a sul do rio Douro, conclui um estudo da Universidade de Aveiro (UA). Enquanto os incêndios e a pressão humana afastam a espécie, as áreas de matos desempenham um papel crucial como refúgio e como zonas potenciais de alimentação.
Segundo o estudo, a acumulação de área ardida ao longo dos 10 anos em que durou, tem um impacto negativo significativo na presença do lobo-ibérico (Canis lupus signatus) no centro de Portugal.
A investigação conduzido pela Unidade de Vida Selvagem do Centro de Estudos do Ambiente (CESAM) e do Departamento de Biologia (DBio) da Universidade de Aveiro (UA) alerta, ainda, para o impacto negativo que os sucessivos incêndios e queimadas (controladas e não controladas) têm, essencialmente, nas áreas de matos, habitat que o estudo identifica como essencial para a permanência desta espécie protegida.
Os resultados indicam também que o lobo tende a evitar áreas com maior presença humana, o que, segundo os investigadores, está relacionado com “um contexto de elevado nível de conflito, associado a prejuízos causados aos produtores de gado e à consequente perseguição sentida na região”. Apesar de difícil de medir, é refletida num número reduzido de lobos identificados, salienta.
A combinação da elevada área ardida acumulada com áreas com índice mais elevado de presença humana leva, inclusive, o lobo a selecionar áreas de menor qualidade de habitat para a espécie e a ter de procurar um equilíbrio entre a distância aos humanos e uma paisagem menos adequada, acrescentam.
Os investigadores recomendam uma gestão do território mais adequada à espécie, que passa pela redução acentuada da área ardida e promoção da regeneração e da sucessão natural da vegetação de espécies nativas em áreas afastadas das povoações.
Esta gestão, adiantam, “irá permitir o crescimento de florestas mais resilientes ao fogo, a criação de refúgio para o lobo e para as suas presas selvagens e, consequentemente, afastar este predador de zonas de conflito com as comunidades locais, podendo levar a uma diminuição de prejuízos”.
Nos últimos 15 anos, a UA tem monitorizado a população de lobo-ibérico a sul do rio Douro. A recolha de indícios de presença, como excrementos, posteriormente validados por análises genéticas, permitem confirmar a presença da espécie. São também utilizadas câmaras de armadilhagem fotográfica para confirmar a existência de alcateias, detetar eventos de reprodução e contabilizar indivíduos.