A indústria dos navios de cruzeiros tem intensificado o seu trabalho de descarbonização da sua frota. O objetivo passa por até 2050 atingirem zero emissões. O esforço do setor foi demonstrado pelo diretor de política marítima da CLIA, José González, durante uma visita ao navio Mein Schiff Relax, que esteve integrada no programa da Cimeira Europeia da Associação Internacional de Navios de Cruzeiros (CLIA), que se realizou no Funchal.

Os navios de cruzeiros representam menos de 1% da frota de navios comerciais que estão em circulação nos oceanos atingindo sensivelmente 300 embarcações, salientou José González. Quarenta e cinco companhias de cruzeiros, que representam 90% da capacidade global de navios oceânicos, são membros da CLIA. No total, estas companhias de cruzeiros operam 310 navios com uma capacidade 637.847 camas.

Mais de 70% da frota de navios de cruzeiros são de pequena e média dimensão, sendo os restantes grandes navios de cruzeiros.

Entre as medidas de sustentabilidade que têm sido adotadas pela indústria estão as iniciativas ligadas à gestão do desperdício através da implementação de sistemas avançadas de tratamento de água desperdiçada (que abrange 234 navios, 82% da frota, e 85% da capacidade). A isto junta-se a produção a bordo de água (279 navios, 98% da frota, e 99.9% da capacidade), a redução do desperdício de comida (128 navios, 45% da frota, 52% da capacidade).

Os dados da CLIA relativos a Sistemas Avançados de Tratamento de Águas Residuais (AWTS) referem que a maioria dos navios de cruzeiro membros da CLIA que navegam atualmente utiliza sistemas avançados de tratamento de águas residuais (AWTS) que conseguem exceder os requisitos do MARPOL Anexo IV.

“Além disso, como parte do seu foco de sustentabilidade geral, as companhias de cruzeiros comprometeram-se a não libertar águas residuais não tratadas em nenhuma parte do mundo durante operações normais”, refere a CLIA.

“Em toda a frota de companhias de cruzeiros membros da CLIA, 234 navios, representando 82,4% da frota e 85,4% da capacidade global de passageiros, são equipados com AWTS, um aumento de 4% no número de navios e capacidade de passageiros, e um aumento de 72% e 71%, respetivamente, desde 2018. Atualmente, mais de um terço dos navios equipados com AWTS conseguem cumprir os padrões de águas residuais mais rigorosos da Área Especial do Mar Báltico. Até 2036, 273 navios e 685 mil LBs de capacidade são especificados para ter AWTS”, adianta a associação.

A CLIA detalha também as medidas que têm sido implementadas ao nível da gestão de resíduos, que permitem que alguns navios sejam capazes de reciclar ou reutilizar quase todos os resíduos gerados a bordo.

“Alguns dos sistemas de última geração atualmente utilizados em navios de cruzeiro incluem: Sistemas de gasificação resíduos-para-energia: Atualmente em uso em oito navios de cruzeiro, estes sistemas convertem resíduos em energia utilizável para apoiar as operações do navio, reduzindo assim os resíduos enviados para aterros e diminuindo a procura de energia do navio. Digestores microbianos para resíduos alimentares: Atualmente em uso em 128 navios de cruzeiro, representando 45% dos navios membros e 52% da capacidade, para reduzir significativamente os resíduos alimentares. A maioria destes tipos de sistemas de gestão de resíduos não estavam presentes em navios de cruzeiro até há cinco anos”, salienta a associação.

O próprio Mein Schiff Relax tem implementado algumas destas medidas com vista a tornar a embarcação mais sustentável. O cruzeiro produz a sua própria água, ou seja não tem necessidades externas a essa nível, e tem também sistemas que permitem aproveitar a comida que é desperdiçada. O Mein Schiff Relax tem também a bordo um sistema de tratamento do desperdício de comida que através do calor permite gerar fertilizante. A empresa foi também responsável, em 2024, por colocar em serviço o primeiro navio verde movido a metanol (Mein Schiff 7).

José González salientou que o hull costing (custos ligados ao casco do navio) permitiu aumentar a eficiência do combustível em 10%. Já existem 33 navios com sistemas de lubrificação do ar. Com sistemas de rastreamento de eficiência estão em circulação 171 navios, com sistema catalíticos de redução são 81 navios.

As tecnologias de Redução Catalítica Seletiva (SCR) permitem reduzir as emissões de partículas e óxidos de azoto, ajudando os navios a cumprir os padrões de classificação IMO Tier III para emissões de óxidos de azoto. “O número de navios de companhias de cruzeiros membros da CLIA com sistemas SCR aumentou de 7 navios em 2018, representando 3% da frota e 3,2% da capacidade, para 81 navios, representando 28,5% da frota e 22,3% da capacidade”, salienta a associação.

Com design eficiente dos cascos contabilizam-se 249 navios. A indústria tem também implementado sistemas de iluminação eficiente através de medidas com a utilização de LED que permitem 80% menos energia que a luz tradicional. Com sistemas de limpeza de gás de exaustão estão a circular 167 navios.

Indústria investe em uso de OPS

A utilização de ligação elétrica em terra (OPS) permite que os navios desliguem os seus motores enquanto estão no porto, reduzindo as emissões até 98%. “O número de navios de companhias de cruzeiros membros da CLIA com a capacidade de utilizar OPS quase duplicou desde 2018. Atualmente, 166 navios conseguem ligar-se no porto, um aumento de 12% em relação ao ano anterior. Estes navios representam 58% da frota e 65% da capacidade”, salienta a associação.

Até 2036, espera-se que 273 navios que conseguem ligar-se a OPS estejam em serviço. “Isto inclui 166 atualmente com OPS, 59 em serviço agendados para retrofit e 48 navios de cruzeiro membros da CLIA em encomenda”, sublinha a associação.

“Atualmente, 41 dos portos mundiais onde os navios de cruzeiro fazem escala (menos de 3%) têm um cais de cruzeiro com OPS, um aumento de oito portos desde o ano passado. A Europa liderou a expansão nos últimos 12 a 18 meses — com OPS lançada em seis portos de cruzeiro adicionais, e o Reino Unido e América do Norte cada um adicionou um novo porto de cruzeiro com OPS. Existem 19 portos que obtiveram financiamento para OPS e 26 mais com planos para o fazer. Como parte dos regulamentos de descarbonização “Fit for 55″ da União Europeia, até 2030 os principais portos na Europa serão obrigados a ter energia a terra, o que irá acelerar ainda mais o investimento em infraestruturas portuárias”, salienta a CLIA.

As empresas estão também a seguir um caminho para a descarbonização através de avanços na tecnologia, nas infraestrutura, e nas operação, onde se inclui também, novos motores, tecnologia de propulsão que estão a ser planeadas e testadas para serem usadas em navios, referiu José González.

“O número de navios equipados com motores multifuel que conseguem mudar de combustíveis convencionais para combustíveis de emissão zero e próxima de zero tanto no porto como no mar aumentou de apenas um navio em 2018 para 19 navios atualmente. Até 2036, prevê-se que 32 navios multifuel sejam colocados em serviço, incluindo sete capazes de utilizar metanol e 25 capazes de utilizar GNL (gás natural liquefeito)”, refere a CLIA.

As companhias de cruzeiro têm também ativos programas para proteger a vida marinha que vão desde a restauração de corais de recife, sistema de tratamento de água, acordos com a CLIA para evitar ou reduzir voluntariamente a velocidade do cruzeiro em zonas sensíveis ou quando a vida marinha está a ser observada, sistema de redução da vibração e do barulho debaixo de água onde se incluem designs especiais dos propulsores e aparelhos de supressão de barulho, parcerias com uma variedade de organizações ligadas à vida marinha, e cientistas a bordo para suportar pesquisa para o benefício do oceano e da vida marinha.