
Ao longo das últimas duas décadas, a inovação aberta foi acompanhada por uma efervescência contagiante: programas lançados com entusiasmo, cargos criados para lhe dar estatuto, eventos pensados para a celebrar, narrativas cuidadosamente construídas para sinalizar modernidade e visão. A inovação aberta tornou-se presença obrigatória no discurso estratégico, quase como se fosse uma espécie de requisito moral para qualquer empresa que desejasse ser vista como relevante no seu tempo.
Essa efervescência começa, porém, a dissipar-se. Vemos cada vez menos anúncios, menos iniciativas visíveis, menos gestos performativos, menos proclamações efusivas, menos investimento em “hubs”, “labs” e conceitos análogos. Para alguns, trata-se apenas de um declínio passageiro e contextual; para outros, é o fim inevitável de mais um conceito excessivamente explorado.
A minha leitura (porventura não menos inquietante) aponta noutra direção: não é a inovação aberta que se esgotou, mas sim a sua versão decorativa, aquela que existia para ser mostrada, legitimada, comunicada, sem nunca tocar profundamente o núcleo onde se decide o futuro.
Durante demasiado tempo a inovação viveu num espaço confortável dentro das grandes organizações, suficientemente próxima do poder para ser notada, mas suficientemente afastada para não o comprometer. Criaram-se estruturas paralelas, ecossistemas satélites, linguagens próprias que permitiam experimentar sem perturbar, aprender sem arriscar, dialogar sem transformar: e, alegremente, a inovação funcionava como promessa permanente, porém raramente como consequência concreta.
O mundo deixou de tolerar essa “eterna promessa”. A aceleração tecnológica, a instabilidade económica, a fragmentação geopolítica e a emergência da inteligência artificial comprimiram o tempo estratégico das empresas até ao limite, sendo que o futuro deixou de ser um exercício prospetivo e passou a manifestar-se no presente, exigindo escolhas difíceis, investimentos claros e uma relação muito mais exigente com a criação de valor. Neste contexto, a inovação deixou de poder existir como gesto aspiracional e passou a ter de justificar a sua presença através de resultados. E, acreditem ou não, isso é uma ótima notícia.
É por isso que os orçamentos se tornaram mais seletivos, que os programas se consolidaram ou desapareceram, que as estruturas simbólicas cedem, todos os dias, lugar a melhores mecanismos operacionais. A inovação que permanece é aquela que gera receitas, que melhora margens, que cria novos negócios, que acelera a transformação interna através de capacidades externas e que lidera, de peito aberto, a disrupção. O próximo legado cria-se através da inovação consequente, sistemática, contínua e estratégica. Tudo o que não cumpre esse percurso entra num processo natural de erosão, por irrelevância estratégica (o célebre “day two” que Jeff Bezos dizia querer evitar a todo o custo).
As empresas que compreendem esta transição mostram evidências muito impressivas dessa evolução. A inovação deixa de ocupar os anexos da estrutura e aproxima-se do centro da decisão. Os seus líderes deixam de ser evangelizadores persistentes e assumem o papel de orquestradores de crescimento, eficiência e renovação estratégica. A relação com start-ups, com a ciência ou com a tecnologia emergente deixa de ser relacional ou experimental e passa a ser industrial, integrada, exigente, orientada para impacto real.
Outros, porém, porventura menos otimistas e profundamente deterministas, falam de um fim, interpretando o recuo do espetáculo da inovação aberta como sinal de morte. Confundem silêncio com desaparecimento e retração com irrelevância, quando aquilo a que assistem é apenas uma deslocação. A inovação não desaparece; apenas abandona os palcos, afasta-se das narrativas fáceis e instala-se nos espaços onde as decisões têm consequências, onde o risco é assumido, onde a transformação deixa de ser uma intenção proclamada inspiracionalmente e passa a ser uma responsabilidade.
Quando a inovação deixa de precisar de adjetivos torna-se verdadeiramente relevante. Porque deixa de funcionar como decoração estratégica e passa a operar como um mecanismo de seleção implacável, separando as empresas que usam o futuro como linguagem daquelas que o assumem como estratégia, compromisso e (próximo) legado.