Os Estados Unidos tornaram-se no terceiro país com maior stock de investimento direto estrangeiro (IDE) em Portugal, ultrapassando a China e o Reino Unido. O crescimento superou os 149% em sete anos.
Os novos dados decorrem de uma revisão estatística do Banco de Portugal (BdP), com implicações em vários países desde 2023. E foram os EUA que mais subiram face à versão anterior, não só em termos absolutos (mais 5,2 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2025), mas também relativos (46,8%).
Com esta nova informação, entre o primeiro trimestre de 2019 (início da série do Banco de Portugal) e o terceiro trimestre de 2025, o crescimento foi de 143,1% — e não de “apenas” 65,6%, como se pensava há poucos meses. Mas há ainda que contar com os dados dos últimos três meses do ano passado, em que houve uma nova subida, atingindo os 16,8 mil milhões de euros (149,3%). O ponto de partida no início de 2019 eram 6,7 mil milhões.
A indústria transformadora, que explica em grande medida a revisão dos números, deu um salto superior a três mil milhões de euros do final de 2023 para o início de 2024. No final do ano passado, atingiu os 4,5 mil milhões de euros, já muito próximo da maior fatia do stock de investimento norte-americano no país, da responsabilidade da banca e dos seguros (5,1 mil milhões).
Em resposta ao Jornal Económico, o BdP explica que a revisão se deve, sobretudo, à “incorporação de nova informação disponível”, nomeadamente da Informação Empresarial Simplificada (IES) de 2024 — uma declaração que as empresas têm de entregar às Finanças.
As alterações aconteceram, “sobretudo, por aquisições que ocorreram entre entidades não residentes, com impacto no país de investidor final do IDE”, mas também por “alterações no país de residência da entidade controladora final” desse investimento. Por outras palavras, o stock mudou de mãos ou a empresa mudou a sede. O Banco de Portugal não detalha.
Entre os investidores mais relevantes em Portugal, estão, por exemplo, a Lone Star, que vai concluir a venda do Novo Banco no final de abril, ou a KKR, que lançou uma OPA sobre a Greenvolt no final de 2023, culminando na saída de bolsa da empresa de energia cerca de um ano depois.
Outros investimentos envolvem o Goldman Sachs (200 milhões na Visabeira), a Aquaterra (175 milhões em Alcácer do Sal), a Westlake (compra da ACI/Perplastic na Guarda, concluída já em 2026), a Visteon (em Palmela) e a UPS (hub em Leiria). IBM, AWS, Google e outras tecnológicas que também têm presença relevante no país.
Num anúncio mais recente, feito em novembro passado — e também de outra dimensão —, está previsto um investimento da Microsoft de cerca de 10 mil milhões de dólares em centros de dados em Sines, em parceria com a Nscale.
China investe mais 31% num ano
A seguir aos EUA, a maior revisão em alta verificou-se no investimento francês: mais 1,6 mil milhões de euros entre junho e setembro do ano passado do que na versão anterior, mas a diferença até chegou a ser superior (2,2 mil milhões no primeiro trimestre). Com 18,8 mil milhões de euros investidos em Portugal, França tem, neste momento, o segundo maior stock de investimento no país, mas os EUA já se aproximam. Espanha, por seu lado, continua a liderar (30,7 mil milhões) e as revisões foram mínimas.
Também a China ficou sem grande revisão, embora o país liderado por Xi Jinping tenha investido mais 31% em Portugal em apenas um ano, quase alcançando o Luxemburgo.
O Grão-Ducado, por seu lado, chegou a ser o terceiro maior stock de investimento em Portugal no início de 2024, revelam os novos dados, mas foi ultrapassado pelos EUA no trimestre seguinte e pelo Reino Unido no final desse ano. Acabou por terminar 2025 com o quinto maior investimento — e não o quarto, como se pensava anteriormente. O crescimento é expressivo, apesar de o ponto de partida ser baixo: passou de 1,7 mil milhões de euros para 15,6 mil milhões em sete anos, ou seja, nove vezes mais (834%).
Todos os posicionamentos no ranking aqui referidos excluem o chamado “round-tripping”, que visa nomeadamente a otimização fiscal: o investimento é feito a partir de Portugal, mas reentra no país e conta para o IDE. Para efeitos estatísticos, Portugal é o segundo maior responsável pelo investimento direto estrangeiro em Portugal.
Reino Unido e Angola ficam a perder
Em sentido contrário aos EUA, França, entre outros, Reino Unido e Angola são os que mais sofrem com a revisão (menos 2,6 mil milhões e 1,8 mil milhões respetivamente).
O país lusófono tem a maior queda percentual face à versão anterior (menos 28,5%) e até já foi pior (menos 44,8% no segundo trimestre de 2024), mas recuperou o décimo lugar no final do ano passado, que já lhe pertencera entre 2021 e 2023.
A partir daí, teve uma quebra acentuada no stock em 2024 — quando perdeu dois mil milhões de euros após a revisão estatística —, só que foi recuperando, deixou primeiro a Suíça para trás e agora o Brasil.
Já a Alemanha ultrapassou os Países Baixos no último trimestre de 2025. Até setembro, já feita a revisão, o stock germânico era inferior ao neerlandês, mas entre setembro e dezembro deu um salto superior a mil milhões de euros (+10,9%), a maior subida entre setembro e dezembro passado.