O investimento global no setor aeroespacial e de defesa está a crescer de forma significativa, impulsionado pela instabilidade geopolítica, pela recuperação da procura por viagens aéreas e pela rápida evolução tecnológica. No entanto, a escassez de talento qualificado surge como um dos principais entraves ao desenvolvimento sustentável desta indústria, de acordo com o estudo da Global Insights Whitepaper – Setor Aeroespacial e de Defesa, do ManpowerGroup.

Segundo o estudo, em Portugal o problema é particularmente acentuado: 88% dos empregadores do setor industrial afirmam ter dificuldades em recrutar talento especializado. A nível global, esta escassez pode custar até 330 milhões de dólares por ano a um fabricante médio, evidenciando o impacto económico direto desta limitação.

O relatório identifica quatro grandes tendências que estão a moldar o setor. A primeira destaca o crescimento acelerado impulsionado pela instabilidade global e pela procura aérea. O atual contexto geopolítico tem levado governos a aumentar os orçamentos de defesa, sobretudo na Europa, onde fundos comunitários estão a mobilizar milhares de milhões de euros para investigação, desenvolvimento e produção conjunta.

Em paralelo, as empresas estão a aproximar cadeias de abastecimento dos principais mercados, através de estratégias de reshoring e nearshoring. Apesar de reduzirem riscos logísticos, estas mudanças aumentam a pressão sobre mercados já afetados pela escassez de talento técnico qualificado, agravando os desafios de recrutamento.

A segunda tendência prende-se com a transformação da Indústria 4.0. Tecnologias como inteligência artificial, Internet of Things, robótica e análise de dados estão a revolucionar os processos produtivos, criando fábricas inteligentes e mais eficientes. No setor aeroespacial e de defesa, destacam-se também os gêmeos digitais e o uso de blockchain para reforçar a segurança e a transparência nas cadeias de abastecimento.

Esta evolução tecnológica está a aumentar a procura por competências especializadas, nomeadamente em análise de dados, cibersegurança e desenvolvimento de software. No entanto, estes perfis são escassos e altamente disputados por várias indústrias. Em Portugal, os empregadores identificam lacunas significativas em produção industrial (41%), engenharia (25%) e desenvolvimento de aplicações e modelos de IA (24%).

A terceira tendência aponta para o crescimento das ameaças de cibersegurança. A digitalização crescente do setor torna-o mais vulnerável a ataques, com 25% dos ciberataques globais em 2024 a visarem empresas industriais. Na Europa, os ataques de sabotagem a empresas aeroespaciais e de defesa quase triplicaram entre 2023 e 2024, após já terem quadruplicado no ano anterior.

Este cenário reforça a necessidade de investimento não só em tecnologia, mas também em talento especializado em cibersegurança, cuja escassez agrava a dificuldade das empresas em proteger infraestruturas críticas.

Por fim, o estudo destaca o desafio de escalar a produção num contexto de envelhecimento da força de trabalho e crescente complexidade das cadeias de abastecimento. A saída de profissionais experientes e a necessidade de atrair novas gerações colocam pressão adicional sobre as organizações.

Millennials e Geração Z trazem competências digitais relevantes, mas valorizam cada vez mais fatores como propósito, progressão de carreira e alinhamento com valores organizacionais, intensificando a competição por talento com outros setores tecnológicos.

Perante este cenário, o estudo conclui que a escassez de talento continua a ser o maior desafio estrutural do setor. Para responder a esta realidade, as empresas terão de investir no planeamento estratégico da força de trabalho, em formação contínua e no desenvolvimento de competências críticas, garantindo assim a capacidade de inovação e crescimento num contexto global cada vez mais exigente.