Sob um apagão digital que encobre a realidade, os contornos da violenta repressão no Irão vão-se conhecendo. Começou-se por falar em três mil vítimas mortais, número que rapidamente escalou. Entidades oficiais citadas pela Reuters apontaram para cinco mil mortes. O ayatollah Khamenei falou em “vários milhares” e reconheceu mortes “de forma inumana, selvagem”. O “Sunday Times” reporta números chocantes: 16.500 mortos e 330 mil feridos. Os próprios meios estatais reconhecem que a maioria dos manifestantes eram jovens, muitos na casa dos 20 anos.

Abbas Masjedi Arani, chefe da autoridade médica forense, citado pela Al Jazeera, descreveu vítimas baleadas à queima-roupa no peito ou na cabeça, ou a partir de telhados, e outras mortas à facada. Milícias xiitas do Iraque juntaram-se à perseguição, com cerca de 800 homens armados.

O apagão digital deixou os manifestantes vulneráveis e dificultou a validação da informação, especialmente durante os massacres massivos de 8 e 9 de janeiro. Apesar da escuridão online, a verdade emerge: vídeos mostram armazéns transformados em morgues improvisadas, testemunhos falam de prisioneiros injetados com substâncias desconhecidas e uma única clínica oftalmológica em Teerão reportou seis mil lesões oculares em poucos dias.

O “El País” confirmou relatos das redes sociais: familiares tiveram de pagar para resgatar os corpos dos seus entes queridos, muitas vezes mortos a tiro de metralhadora. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) é descrita como uma máfia repugnante que mata e espolia.

Num apelo emocionante, o premiado cineasta Jafar Panahi, a salvo fora do Irão, declarou: “Defenderemos com toda a nossa força o direito à liberdade de expressão, condenaremos a repressão e o assassinato de manifestantes e apoiaremos o povo iraniano.” Na revista “Variety”, Panahi estabeleceu uma condição vital: “Até que as pessoas tenham vontade de mudar algo a partir de dentro, nada será capaz de fazer essa mudança.” E expressou uma esperança: regimes como este acabam inevitavelmente por cair.

O artigo defende que cabe à sociedade civil internacional apoiar, pressionar e exigir. Os direitos humanos devem ser cumpridos e as instituições internacionais não podem ignorar a violência. A autodeterminação deve vir do povo iraniano, sem intervencionismos externos que transformem o país num “protectorado semi-colonizado”.

Os manifestantes, numa afirmação política corajosa, não pedem, mas declaram: “Lutamos, morremos, recuperamos o Irão.” Apesar de os protestos parecerem contidos, as autoridades pedem agora a cabeça de milhares de manifestantes. Clérigos como Ahmad Khatami acusam-nos de serem “servidores de Netanyahu e soldados de Trump”, uma narrativa que o artigo classifica como um insulto à luta de um povo oprimido.

O texto conclui com um apelo à ação, citando o poema do século XIII de Saadi de Xiraz, “Bani Adam” (Filhos de Adão), gravado na sede da ONU, que fala da interconexão da humanidade: “Se o destino fere um dos membros com a dor, Os outros membros não ficam em paz.” A esperança, afirma, nunca pode ficar à espera.