A Guarda Revolucionária do Irão declarou esta segunda-feira o encerramento do estreito de Ormuz. Os navios que incumprirem, serão atacados.
“O estreito está fechado. Se alguém tentar passar, os heróis da Guarda Revolucionária e a Marinha vão pegar fogo a esses navios”, disse Ebrahim Jabari responsável desta milícia citado pela “Reuters”.
Este é um ponto crucial para o setor energético global. Por dia, passa por aqui um quinto do petróleo consumido globalmente por este estreito, com origem na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Irão e Kuwait, transportando crude, mas também gasóleo, gasolina, combustível para aviação.
O trânsito de navios no estreito de Ormuz caiu mais de 80% no domingo, um dia depois dos primeiros ataques dos EUA e Israel ao Irão. Cerca de 150 navios lançaram âncora e estacionaram na região à espera de desenvolvimentos para seguirem as suas viagens.
Dos 23 navios que atravessaram o estreito no domingo, um total de 21 estava a dirigir-se a leste, isto é, a sair da região do Golfo Pérsico. Dos 23 navios, nenhum transportava gás ou petróleo, segundo dados da Lloyd’s List Intelligence.
O estreito crucial para o setor energético global continua aberto à navegação, mas ninguém se quer arriscar a passar.
Afonso de Albuquerque e o seu exército combateram ferozmente no estreito de Ormuz há 500 anos, tendo conquistado a ilha de Ormuz, perdido-a após uma traição dos seus homens, para voltar a conquistá-la anos mais tarde. As ruínas do Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz ainda lá continuam a vigiar o canal marítimo por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo todos os dias.
Por estes dias, há relatos que a Marinha da Guarda Revolucionária Iraniana tem estado a transmitir mensagens via rádio para os navios a informar que o estreito está fechado, mas não há nenhuma declaração oficial por Teerão.
O fecho do estreito de Ormuz tem sido atingido graças a “táticas de medo e guerra psicológica”, segundo a Lloyd’s List Intelligence.
Entretanto, várias seguradoras marítimas estão a cancelar a cobertura para riscos de guerra em águas iranianas e do Golfo Pérsico, segundo a “Reuters”.
Preço do gás dispara mais de 40% depois do Qatar interromper produção
O preço do gás na Europa agravou hoje as suas perdas após o Qatar anunciar a interrupção da produção de gás natural.
Depois de estar a recuar 21% esta manhã, o índice europeu TTF agravou as perdas para mais de 40% com o preço acima dos 45 euros/MWh nos contratos para entrega em abril.
O Qatar anunciou hoje a paragem na produção com os ataques iranianos sob o país em retaliação aos ataques dos EUA e de Israel.
A estatal QatarEnergy, com mais 80% dos clientes a serem asiáticos, foi obrigada a declarar force majeure nas suas cargas de gás líquido após o ataque de drones iranianos ao complexo de Ras Laffan, onde o gás gasoso é transformado em líquido para ser transportado via navio.
Ras Laffan é a maior fábrica de exportação de gás do mundo. É daqui que parte um quinto do gás mundial.
O ataque a este complexo chega a par com ataques a infraestruturas energéticas também na Arábia Saudita.
Os petroleiros/metaneiros já deixaram de cruzar o estreito de Ormuz depois das seguradoras anunciarem que não vão cobrir quaisquer custos dada a tensão na região.
O gás qatari pesa 20% no consumo global, abastecendo tanto a Ásia como a Europa.
Já o barril de petróleo valoriza mais de 7% para mais de 78 dólares.
Na Arábia Saudita, o ataque de um drone levou o país a interromper produção na sua maior refinaria.
Também no Curdistão iraquiano a produção de petróleo sofre recuos e vários campos de gás de Israel travam as suas exportações para o Egipto.
Os drones iranianos também atacaram a zona industrial de Mesaieed onde estão instaladas empresas petroquímicas e fábricas.
“A ameaça à segurança de abastecimento está aqui e agora. A sua escala vai depender da duração do confronto, mas estamos agora num novo cenário”, disse o analista do think-tank Bruegel Simone Tagliapietra.
A maior parte do gás do Médio Oriente destina-se aos países asiáticos, mas uma disrupção vai provocar a competição para fontes de abastecimento alternativas, aumentando os preços no mercado mundial.
Os inventários de gás estão abaixo da sua média para a época e a região precisa de importar grandes quantidades de gás este verão para ter reservas para o próximo inverno.
O disparo percentual no preço do gás é o mais elevado desde a invasão russa da Ucrânia, mas o preço do gás está abaixo dos 50 euros/MWh porque as fontes de abastecimento da Europa não foram diretamente afetadas, com os mercados a avaliar a duração do conflito.
Quanto tempo vai durar o conflito no Médio Oriente? Esta é a pergunta que os analistas fazem em todo o mundo neste momento.
Se o estreito de Ormuz estiver fechado um mês, os preços europeus de gás podem dobrar, segundo uma estimativa do Goldman Sachs.
Mesmo que os EUA disparem a produção, não será suficiente para substituir o Qatar no curto-prazo.
Donald Trump já avisou que a campanha de bombardeamento vai durar semanas. Teerão tem retaliado sobre Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Israel.