O Irão e os Estados Unidos chegaram a um entendimento sobre os “princípios orientadores” das negociações destinadas a resolver a questão nuclear que persiste entre os dois países – apesar de as partes envolvidas terem afirmado também que isso não significa que esteja iminente um acordo. “Foram apresentadas ideias diferentes, mas essas ideias foram seriamente discutidas e, por fim, conseguimos chegar a um acordo geral sobre alguns princípios orientadores”, disse o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, no final da ronda de negociações mantida em Genebra, Suíça.

As conversas indiretas entre o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff – como sempre acompanhado pelo genro do presidente, Donald Trump, Jared Kushner – e Araqchi foram mediadas por Omã. O ministro das Relações Exteriores de país árabe, Badr al-Busaidi, disse nas redes sociais que “ainda há muito trabalho a ser feito”, mas que o Irão e os Estados Unidos acordaram “os próximos passos claros”.

Antes do início das negociações, a tensão foi crescendo. O Irão fechou temporariamente parte do Estreito de Ormuz, uma rota vital para o abastecimento global de petróleo, por “questões de segurança”, enquanto a Guarda Revolucionária de elite do realizava exercícios militares na região. Por outro lado, em resposta aos comentários de Trump de que uma “mudança de regime” no Irão poderia ser a melhor solução, o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, alertou que qualquer tentativa dos Estados Unidos de depor o seu governo fracassaria. “O presidente dos Estados Unidos diz que o seu exército é o mais forte do mundo, mas o exército mais forte do mundo às vezes pode levar um golpe tão forte que não consegue levantar-se”, disse, citado pela imprensa do país.

Mas, a ver pelos relatos das agências internacionais, as duas partes conseguiram ultrapassar esse momento de tensão – que se repete há vários anos e se intensificou desde que, em 2018, os Estados Unidos saíram do perímetro do acordo nuclear que, em 2015, o ocidente conseguiu fechar com o Irão.

Num discurso proferido numa conferência sobre desarmamento em Genebra, após as negociações, Araqchi afirmou que uma “nova janela de oportunidade” tinha sido aberta e que esperava que as negociações levassem a uma solução “sustentável” que garantisse o pleno reconhecimento dos direitos legítimos do Irão. O ministro falava na Conferência sobre Desarmamento nas Nações Unidas, que decorria paralelamente às negociações em Genebra.

Trump disse antes disso que ele próprio se envolveria “indiretamente” nas negociações de Genebra e que acreditava que Teerão queria chegar a um acordo. “Não acho que eles queiram as consequências de não chegar a um acordo”, disse Trump esta segunda-feira. “Poderíamos ter chegado a um acordo em vez de enviar os B-2 para destruir o seu potencial nuclear. E tivemos que enviar os B-2.”

Em junho passado, os Estados Unidos juntaram-se a Israel no bombardeamento de instalações nucleares iranianas. Os norte-americanos e Israel acreditam que o Irão aspira a construir uma arma nuclear que poderia ameaçar a existência de Israel. O Irão afirma que o seu programa nuclear é não-militar, embora tenha enriquecido urânio muito além da pureza necessária para a geração de energia e próximo do nível exigido para uma bomba. Neste contexto, o ocidente não acredita que as intenções do Irão sejam apenas não-militares – mas os analistas também não acreditam, ao contrário do que diz Trump, que os bombardeamentos tenham destruído todo o complexo nuclear iraniano, que está disperso pelo país e, pelo menos parte deles, enterrado no subsolo.

Washington tem procurado aumentar âmbito das negociações para questões não nucleares, como o arsenal de mísseis do Irão, mas o regime de Teerão afirma não estar disponível para isso. Em cima da mesa, na ótica dos iranianos, está a discussão sobre as restrições ao seu programa nuclear em troca do alívio das sanções internacionais impostas por Washington.

O Irão aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, que garante aos países o direito de desenvolverem energia nuclear para fins civis em troca da exigência de que renunciem às armas atómicas e cooperem com a agência nuclear da ONU, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Sucede que Abbas Araqchi reuniu esta segunda-feira com o chefe da agência exatamente antes das negociações com os Estados Unidos.

Em declaração feita durante uma visita à Hungria nesse mesmo dia, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que chegar a um acordo com Teerão seria difícil: “acredito que existe uma oportunidade para chegarmos a um acordo diplomático que aborde as questões que nos preocupam. Estaremos muito abertos e recetivos a isso. Mas também não quero exagerar. Vai ser difícil. Tem sido muito difícil para qualquer país fechar acordos reais com o Irão, porque estamos a lidar com clérigos xiitas radicais que tomam decisões teológicas, não geopolíticas”.

A AIEA vem exigindo que o Irão explique o que aconteceu com seu stock de 440 kg de urânio altamente enriquecido após os ataques israelitas e norte-americanos, e que o país permita o regresso das inspeções a locais considerados essenciais: Natanz, Fordow e Isfahan.

Família Pahlavi ‘volta a atacar’

Sempre que há um aumento da tensão entre os Estados Unidos e o Irão, a família Pahalavi – que ocupou por uns anos o poder iraniana entre o fim do regime democrático e a revolução teocrata de 1979 – volta a aparecer na comunicação social para defender a sua vontade de regressar ao país de origem. Por estes dias, Reza Pahlavi – que tinha 18 anos em 1979, quando o pai, Mohammad Reza Pahlavi, foi deposto e exilado nos Estados Unidos – voltou a estar muito ativo.

A família tem uma legião de apoiantes – nomeadamente entre a comunidade israelita norte-americana – mas os analistas afirmam na sua maioria que o seu eventual regresso tem muito pouca tração no país. A revolta que acabou com a monarquia encabeçada por Mohammad foi na altura muito apoiada pela população iraniana, que não se terá esquecido que os Pahalavi permitiram que o ocidente tomasse conta da maioria dos ativos petrolíferos do país, ao mesmo tempo que desbaratava recursos numa vida faustosa que não trazia qualquer benefício a uma população que foi sendo atirada perigosamente para o limiar da pobreza.