Ao mesmo tempo que as agências noticiosas iranianas indicam que estão a concentrar-se forças militares em grande número na capital iraniana, Teerão, o presidente do país, considerado um moderado, prometeu reformas económicas imediatas para atender às reivindicações de quem protesta nas ruas e tentar parar as manifestações, que têm sido palco de centenas de mortes.

Masoud Pezeshkian garantiu que o seu governo planeia reprimir a corrupção e o abuso do acesso privilegiado a moeda estrangeira, procurando estabilizar os mercados e melhorar o nível de vida da população. Os protestos generalizados que se estenderam a todo o Irão foram inicialmente motivados por questões económicas: a instabilidade cambial, a queda do valor da moeda – que provocou um surto inflacionista e a consequente queda do poder de compra por via do aumento dos preços dos bens essenciais, que em alguns produtos terão chegado aos 50%.

De acordo com a agência de notícias iraniana Tasnim, Pezeshkian disse que as reformas planeadas pretendem acalmar os mercados cambiais e aliviar a pressão sobre as famílias, particularmente as de baixos rendimentos – que no início dos protestos foram alvo de uma atenção da parte do governo por via da atribuição de um subsídio. O presidente afirmou ainda que o governo está a trabalhar para reforçar a produção nacional nos setores industrial e agrícola.

Académicos e especialistas serão envolvidos nos esforços para reduzir a dependência do Irão em relação às importações.

Pezeshkian acrescentou que a expansão da produção nacional ajudará a preservar as reservas cambiais e a apoiar a economia, enquanto o Irão continua a ser afetado pelas sanções – não só as antigas, mas também as que esta semana foram impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Parte das sanções incidem sobre os países que mantêm relações comerciais com o Irão – onde se destacam a China, Índia, Rússia, Turquia, Emirados Árabes e Brasil.

Pressão dura

Mas a moderação do presidente e a sua preocupação em batalhar contra as causas dos protestos não são acompanhadas por todo o governo: parte dele, de linha mais dura e próxima do clero que verdadeiramente comanda o país, está mais preocupado em manter pressão sobre os manifestantes. O ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, ameaçou que o governo utilizará todos os recursos para “reprimir os terroristas armados e selvagens” que, segundo disse, estão por detrás dos distúrbios. “Os autores e executores dos distúrbios devem saber que os estamos a monitorizar”, afirmou, sublinhando que o governo tem “agido com moderação” até à data, deixando no ar a possibilidade de a repressão vir a aumentar.

Até agora, o travão tem sido as ameaças que Donald Trump explicitou com pouca margem para dúvidas: se a repressão continuar, os Estados Unidos não vão abster-se por muito mais tempo de intervir.

Nasirzadeh insistiu na tese de que os distúrbios foram orquestrados pelos Estados Unidos e por Israel, colocando assim de lado as causas económicas usadas pelo presidente.

Do seu lado está a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão – a mais temível força militar do país. O comandante das Forças Terrestres daquele grupo, brigadeiro-general Mohammad Karami, disse, citado pela imprensa iraniana, que as forças armadas estão “prontas ao máximo” e em permanente estado de alerta. E afirmou que o país enfrenta uma “guerra abrangente e híbrida” travada em múltiplas frentes, incluindo as esferas económica, social, política e cibernética.

Alerta moderado em Al Udeid

Entretanto, o nível de alerta de segurança na base militar de Al Udeid, no Qatar, foi reduzido depois de ter sido colocado no topo da escala na quarta-feira, noticiou a Reuters. Alguns norte-americanos abandonaram Al Udeid, a base no Médio Oriente que alberga o maior número de tropas dos Estados Unidos e que foi atacada em retaliação no dia seguinte ao ataque norte-americano ao complexo nuclear iraniano, em junho passado.

Fontes diplomáticas disseram à agência que alguns dos militares aconselhados a abandonarem a base foram autorizados a regressar, ao mesmo tempo que alguns aviões de guerra que tinham sido retiradas da base por precaução estavam gradualmente a regressar. Cerca de dez mil militares norte-americanos estão sediados em Al Udeid, segundo números divulgados pela televisão AL Jezeera.