Há uns anos, um português imigrado nas Nações Unidas dizia-me que havia dois erros comuns que quem se mudava de Portugal para Nova Iorque cometia, e que ele também o fez: levar o carro para o emprego e tentar morar em Manhattan. No primeiro caso, o custo com o estacionamento era incomportável. No segundo, tendo família, o preço do metro quadrado e a qualidade de vida não o justificavam, de todo. A solução é morar nos subúrbios, com espaço, e fazer o tradicional movimento pendular casa-trabalho em transportes públicos. “Estou muito melhor”, garantia-me.
Lembro-me sempre disto quando aqui se debate a habitação. A cidade de Nova Iorque tem cerca de 8,3 milhões de habitantes, em cinco condados, numa área de 1.214 quilómetros quadrados. Na área metropolitana, são 25 condados, distribuídos por três estados, com 19,5 milhões de pessoas. Duas vezes Portugal. Não comparemos com Lisboa, que é mínima, mas com a área metropolitana. São 2,9 milhões de habitantes, numa área 2,5 vezes maior do que a da cidade de Nova Iorque, com 18 câmaras. No primeiro caso, apesar da atomização e da representatividade local, os transportes, as infraestruturas interestaduais e o planeamento são coordenados por entidades regionais, com o acordo dos estados. Seria impossível de outra forma. Em Portugal, são 18 municípios.
Tentar resolver o problema da habitação em Lisboa sem olhar para toda a área envolvente, para os transportes (olhem para a mobilidade) ou para as infraestruturas não faz qualquer sentido. Nunca fez. Achar que o conseguem fazer sem planeamento, uma atividade que até na administração central está votada ao esquecimento, é ainda pior. Mas levamos tempo a aprender.