Quando escrevi as últimas páginas de “Líbano, uma Biografia”, no final de 2024, o país estava sob ataque das forças israelitas, uma ofensiva que tinha por objetivo eliminar o Hezbollah. Foram muitos dias de bombardeamentos, destruição de infraestruturas, ataques indiscriminados contra civis, evacuações. O caos foi lançado num país pequeno e, no entanto, tão diverso.
O cessar-fogo que se seguiu a esse ataque nunca foi realmente posto em marcha. Os ataques continuaram, longe das notícias, e o sofrimento de um país já enormemente fragilizado prolongou-se, dia após dia. A incerteza abateu-se sobre o Líbano.
Com a morte do Ayatollah Khamenei, o Líder Supremo do Irão, num ataque concertado entre EUA e Israel, era inevitável uma escalada de violência na região. Os iranianos retaliaram contra Israel e os países do Golfo Pérsico, impelidos por um plano de vingança.
Efetuar uma análise fria e objetiva do atual quadro internacional não é tarefa fácil, há inúmeras nuances e motivações. É uma guerra que viola soberania, é uma guerra mercenária e fundamentalista. Todas as ilusões que ainda alimentávamos acerca de uma paz podre naquela região estão estilhaçadas.
As economias da Ásia e da Europa encontram-se vulneráveis e serão afetadas por aumento de preços, inflação, quando questões locais e de ordenamento do território estão a empurrar comunidades para a sobrevivência.
Mas a verdade é que o lado racional que impera em mim não consegue disfarçar totalmente a angústia de testemunhar esta realidade, especialmente quando é o meu país de origem que está na mira e um dos alvos a abater. O Líbano está, novamente, aprisionado nesta devastação e à mercê dos abutres, e ninguém parece ter a capacidade de pôr um fim definitivo à loucura. Aprisionado, uma vez mais, na guerra dos outros.
Há dias, os franceses anunciaram a solução de “dissuasão avançada”, através do aumento de ogivas nucleares. Estamos a entrar numa nova era de armas nucleares, em que impera a lei do mais forte. O Direito Internacional já não nos protege, num contexto em que os Tratados são ignorados e os regimes de controlo de armas se esboroam.
Recordo as palavras que escrevi no final do meu livro, quando fomos confrontados com o conflito de 2024: “Nas trevas que habitam em cada um de nós, tentamos encontrar um sentido a que nos possamos agarrar com força e que nos dê a possibilidade de não nos sentirmos tão perdidos.” Hoje, um dos maiores desafios é, precisamente, encontrar esse sentido.