As empresas industriais chinesas observaram um aumento substancial dos seus lucros nos dois primeiros meses deste ano: foram 15,2% em comparação com o mesmo período do ano anterior – o que parece vir em favor do novo quadro estratégico proposto pelo governo de Xi Jinping. De facto, a China passou de uma postura de ‘fábrica do mundo’ para uma lógica de ‘fábrica das fábricas’ na tentativa de absorverem a sobrecapacidade instaladas – decorrente não só da fraca prestação do mercado interno, mas também do previsto emagrecimento das exportações como consequência da tentação protecionista da ‘concorrência’ norte-americana. Os números são da responsabilidade do Gabinete Nacional de Estatísticas.
Já em dezembro do ano passado, os lucros da indústria chinesa tinham aumentado 5,3%, pelo que a prestação de janeiro e fevereiro deste ano veio reforçar o bom desempenho do Império do Meio. Este forte início de ano marca uma aceleração significativa em relação ao crescimento acumulado de apenas 0,6% registado no ano de 2025, indicando uma melhoria significativa no setor industrial. Segundo a mesma fonte, uma parte do crescimento fica a dever-se diretamente à prestação do setor de produção de equipamentos e das indústrias de alta tecnologia – o que, por outro lado, evidencia a modernização da economia com base no setor industrial. Só no que tem a ver com estas indústrias, o Gabinete de Estatísticas indica que os lucros dispararam 58,7% em relação aos dois primeiros meses do ano passado. Veículos aéreos não transportados e semicondutores estão na linha da frente da resposta chinesa aos desafios globais. Produtores de matérias-primas, incluindo metais não ferrosos e produtos químicos, também reportaram um forte crescimento de lucros, em alta de 148,2% e 35,9%, respetivamente.
Perspetivas conservadoras
Mas uma parte do crescimento fica também a dever-se a uma alta dos preços dos produtos nos dois primeiros meses deste ano – ou seja, há um papel que pode atribuir-se à inflação, algo que o governo de Pequim tem combatido com determinação.
O conflito no Médio Oriente vai, entretanto, acabar por impactar este indicador, uma vez que a China continua a ser fortemente consumidora de combustíveis fósseis. A suspensão do tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz tem um impacto direto na China e o aumento dos preços não pode deixar de absorver o aumento dos lucros registado nos dois primeiros meses do ano – com o ataque ao Irão a suceder exatamente no último dia daquele período.
Pequim tem tentado conter as consequências da interrupção nos envios de petróleo a partir do Oriente Médio. À medida a que o aumento dos preços globais do petróleo começou a infiltrar-se na economia doméstica, a China elevou os preços para a gasolina e o diesel há uma semana, mas limitou o aumento a cerca de metade do ajuste habitual para amortecer o impacto sobre os consumidores. Face a este esforço central, os analistas esperam que os preços da energia aumentem menos na segunda maior economia do mundo em comparação com alguns dos seus diretos competidores. Até porque a China tem grandes reservas de petróleo e as fontes alternativas de energia são uma das suas prioridades – exposta no 15º Plano Quinquenal (2026–2030).
Aprovado em março, o plano foca-se na “modernização” da economia, priorizando a inovação tecnológica, mas novas forças produtivas (nomeadamente a Inteligência Artificial), na autossuficiência económica e na transição energética.
De qualquer modo, e segundo as agências internacionais, o Irão continua, apesar da guerra, a enviar petróleo para a China. E a ‘torneira’ russa também não está fechada – se bem que os preços também tenham sofrido um ajustamento em alta.
Visitas a Xi Jinping também estão em alta
Nos últimos três meses, o francês Emmanuel Macron, o irlandês Michael Martin, o canadiano Mark Carney, o britânico Keir Starmer e o finlandês Petteri Orpo constituíram a ‘armada ocidental’ que fez questão de ser recebida pelo presidente chinês, Xi Jinping – para além de várias outras visitas ilustres idas de outras partes do mundo. Algumas das visitas de líderes ocidentais foram diretamente criticadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump – como foram os casos mais ‘sonoros’ de Starmer e de Carney – mas não é por isso que o fluxo dá mostras de abrandamento. O próximo líder europeu a aterrar em Pequim será o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez (de 13 a 15 de abril), exatamente um mês antes do próprio Trump ali se deslocar (se não houver novos adiamentos). As comitivas governamentais são invariavelmente acompanhadas por uma forte componente de empresários e de líderes de associações patronais e setoriais.