
Na sua edição de 25 de setembro de 1990, o Los Angeles Times noticiava que as ameaças de Saddam Hussein haviam espoletado um aumento expressivo do preço do barril de crude, elevando-o ao patamar dos 38 dólares. Tal aumento, na ordem dos 8%, resultava do receio de um eventual ataque aos campos petrolíferos sauditas e da possível situação de escassez que este provocaria, quase dois meses depois de o Iraque ter invadido o Kuwait. Com a queda expressiva das cotações bolsistas, os mercados financeiros reagiram e o dólar conheceu uma depreciação substancial.
Repetia-se, então, a conjuntura observada há praticamente uma década, aquando da deposição do Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, e do subsequente conflito militar entre o Irão e o Iraque, desencadeado por uma tentativa de invasão territorial perpetrada pelo governo de Saddam Hussein. Se os tumultos decorrentes do primeiro acontecimento afetaram a extração de petróleo por parte dos iranianos, a eclosão da guerra condicionou-a também no Iraque, privando a economia mundial da exportação diária de milhões de barris. A profunda dependência desta matéria-prima esteve na génese de uma crise sistémica, que forçou a adoção de políticas monetárias contracionistas em diversos países do noroeste global, de forma a combater as pressões inflacionárias emergentes.
A estagflação ressurgia, assim, poucos anos após o término da era dourada do crescimento económico, motivado por uma sequência de eventos dos quais constou o embargo imposto pelos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Decidido enquanto resposta ao fornecimento norte-americano de armamento e equipamento militar ao exército israelita, que guerreava com os seus congéneres egípcio, jordano e sírio no conflito do Yom Kippur, tal embargo contemplou cortes na produção e a suspensão do abastecimento de petróleo, nomeadamente aos países apoiantes de Israel, como eram os casos da então Holanda, de Portugal e da África do Sul. O seu efeito imediato foi o aumento significativo do preço do barril de crude, permitindo aos membros da organização deter um poder de mercado que há muito ambicionavam.
Os acontecimentos aqui sucintamente relatados lembram episódios recentes, nem sempre protagonizados pelos atores de outrora, mas com repercussões similares, sobretudo para o comércio e, em sentido mais lato, a economia mundial. Conhecer a História possibilita, por isso, a compreensão e a antecipação de tais repercussões, afigurando-se essencial para as análises retrospetivas e prospetivas de economistas e as tomadas de decisão de gestores de empresas. Afinal, hoje como há cerca de 500 anos, aquando do seu controlo por parte de Afonso de Albuquerque e dos portugueses, Ormuz continua a ser um ponto nevrálgico do sistema de trocas global.