Durante uma década, os vistos gold foram sinónimo de milionários a comprar casa em Portugal. O imobiliário foi a primeira porta de entrada para cidadãos estrangeiros obterem residência através do investimento, mas, apesar de ter atraído capital, este modelo acabou acusado de inflacionar o preço da habitação e de distorcer o mercado imobiliário. Em 2025, o Estado fechou essa porta e abriu outra, mais silenciosa, mas financeiramente interessante: a do mercado de capitais.
Longe dos holofotes do imobiliário, o “dinheiro” dos vistos gold encontrou nos fundos de investimento mobiliário e de capital de risco um novo destino. A exigência legal de aplicar pelo menos 60% do capital em empresas portuguesas transformou estes veículos num canal de financiamento da economia nacional e, talvez, num inesperado empurrão da bolsa. O resultado, segundo fonte financeira, são 732 milhões de euros captados em 2025 para este tipo de ativos financeiros.
Junte-se ainda o índice português (PSI) em máximos históricos. Algo que só encontra paralelo a 8 de janeiro de 2010. Para o analista da XTB, João Cruz, “este é um sinal de força” do mercado, mas também resulta de uma “composição mais concentrada, em que alguns nomes com maior peso influenciam o índice de forma positiva com mais facilidade”. Rui Ribeiro, analista financeiro da ProtesteInveste, salienta o facto de a Bolsa Nacional ter subido 29,6% em 2025. “Uma das melhores performances a nível mundial. No dia 4 de fevereiro de 2026, já acumula uma subida de 6,8%”, diz.
Mudança de estratégia
A realidade é que os vistos gold deixaram de pesar sobre as cidades e passaram a render e a investir nas empresas nacionais. “Numa perspetiva operacional, uma parte significativa desses fundos acabou por direcionar a alocação para ações cotadas em Portugal, em particular para empresas de maior capitalização bolsista, com níveis adequados de liquidez, estruturas acionistas estáveis e políticas de dividendos consistentes. Num mercado relativamente pequeno e com “free float” limitado, este tipo de procura, estável e pouco sensível a flutuações de curto prazo, tem um efeito assimétrico: não gera movimentos abruptos, mas contribui para sustentar cotações e reforçar tendências já em curso”, explica João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa.
O analista diz ainda que é neste enquadramento que se pode afirmar com convicção de que os fundos associados ao regime de Vistos Gold terão contribuído para exercer alguma pressão compradora, sobretudo em períodos em que a oferta vendedora era escassa. “O impacto foi tanto mais relevante quanto mais concentrado esteve em determinados títulos e fases de mercado, funcionando como um fator de apoio adicional à valorização, ainda que sem capacidade para, isoladamente, redefinir níveis de mercado”.
Segundo Jorge Duarte, analista da ProtesteInveste “os fundos de ações nacionais estavam moribundos. Era uma categoria de ativos que encolheu nos últimos anos. Quer em termos de número, quer em rentabilidade. Em 2025 as valorizações subiram 30,1%, acompanhando o movimento do Sul da Europa”.
Vanessa Câmara, advogada da Abreu Advogados e especialista em imigração, diz que a maioria dos estrangeiros que investe em Portugal utiliza a via dos fundos de investimento e capital de risco, sendo, regra geral, o montante de 500 mil euros o valor mais utilizado. Para a advogada este é um mecanismo interessante para quem investe e uma forma de contribuir para a economia nacional e para as empresas portuguesas.
Rui Ribeiro explica ainda que a subida da bolsa tem outros fatores associados. “Por um lado, a economia nacional cresceu acima da média da UE, por outro, o nível de endividamento tem melhorado. Agora é 90% do PIB”. Na sua opinião, todos estes fatores ajudam a que os investidores olhem para a nossa bolsa com interesse. Depois, “como somos um mercado pequeno, uma maior procura de ações tem de imediato um impacto no aumento das cotações.”
Várias empresas cotadas na bolsa portuguesa estão a beneficiar deste novo fôlego gerado no PSI. Se a análise se cingir aos últimos três anos (dados retirados a 4 de fevereiro) verifica-se que as maiores valorizações foram do Banco Comercial Português (BCP) e da Mota-Engil com as ações a subir 361% e 162%, respetivamente. Bem perto de duplicar o seu valor esteve a Sonae (96%). Os CTT (89%), a Semapa (85%), a Galp Energia (41%), a Ibersol (73%) e a REN (39%) também subiram. Contudo há cotadas que acumularam perdas nos últimos três anos, caso da Corticeira Amorim (-26%), EDP Renováveis (-32%), e REN (-5%).
Ações em alta e em queda
Se apertarmos o período temporal para o último ano, a vencedora é a Sonae que subiu 100%, seguida da Mota-Engil (63%), da Semapa (50%), do Banco Comercial Português (BCP) com 92%, e da EDP Renováveis com 44%. Seguiram-se a EDP e REN com (43%), a Ibersol (33%), e a NOS (31%). Já a Teixeira Duarte soma um crescimento de 458%, mas só entrou no PSI em setembro de 2025. Com perdas destacam-se a Corticeira Amorim (-19%), a Navigator (-7%), e a Altri (-22%).
Desde o início deste ano, as valorizações são lideradas pela Galp (17%), Sonae e NOS (14%), e EDP (11%). A Semapa, a REN, e a EDP Renováveis subiram 9%, e a Ibersol (8%). No vermelho estão a Teixeira Duarte (-22%), Mota-Engil (-4%), Altri (-0,3%), e CTT (-5%).
Quanto ao desempenho global do PSI nos últimos três, cinco e dez anos, a sua valorização atingiu os 49%, 83% e os 79%, segundo o MarketScreener. Em termos anualizados, nos últimos três anos, a bolsa portuguesa somou um crescimento de 14%, enquanto a cinco anos atingiu os 12%, conforme adianta a plataforma da DECO.
Quantos investidores e de que países estamos a falar?
O relatório Migrações e Asilo 2024 da Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA), revela que no decorrer do ano 2024 foram concedidas 2081 Autorizações de Residência para atividade de Investimento. Relativamente às nacionalidades, os Estados Unidos estão no topo com 406 autorizações, seguidos da China com 296, Rússia com 248, Reino Unido com 147, Índia com 140, Turquia com 128, África do Sul com 100 e por fim, Brasil com 98.
No entanto, a atribuição de uma autorização de residência com vistos gold tem estado lenta, tendo a AIMA, em 2025 começado a despachar os processos pendentes desde 2022 e a marcar agendamentos para a recolha dos dados biométricos. “Esperemos que a AIMA aprove os processos em 90 dias, prazo previsto na lei uma vez que o investimento já está em Portugal e os investidores e os seus familiares estão a aguardar pelos títulos de residência”, afirma Vanessa Câmara.
Como entrar em Portugal usando os vistos gold?
Os estrangeiros têm várias formas de entrar em Portugal aplicando as suas poupanças. A Lei n.º 61/2025, de 22 de outubro, mantém o programa de Vistos Gold em Portugal, com várias opções de investimento. Segundo Vanessa Câmara, advogada da Abreu e especialista em imigração, é possível obter autorização de residência através da subscrição de fundos de investimento ou de capital de risco, com um valor mínimo de 500 mil euros. Estes fundos não podem ter qualquer ligação direta ou indireta ao setor imobiliário, devem ser supervisionados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), ter uma duração mínima de cinco anos e garantir que pelo menos 60% do capital é investido em empresas sediadas em Portugal. A mesma regra se aplica aos fundos de capital de risco.
Outra opção passa por um investimento mínimo de 500 mil euros numa empresa portuguesa, desde que resulte na criação de pelo menos cinco postos de trabalho permanentes. “Em alternativa, a criação direta de dez empregos a tempo inteiro — ou oito, em territórios de baixa densidade — também continua a ser elegível”, explica a advogada.
O regime inclui ainda modalidades de natureza não lucrativa, como uma doação mínima de 250 mil euros, valor que pode ser reduzido para 200 mil euros em zonas de baixa densidade, destinada a projetos de preservação do património cultural, produção artística ou iniciativas culturais reconhecidas pelo Estado. Existe também a possibilidade de investir em investigação científica, através de uma contribuição de 500 mil euros para instituições integradas no sistema científico e tecnológico nacional.
Independentemente da opção escolhida, aplicam-se regras comuns: o investimento deve ser feito com capitais provenientes do exterior, o candidato não pode ter antecedentes criminais relevantes e o investimento deve ser mantido por um período mínimo de cinco anos. Em contrapartida, o programa exige uma presença física reduzida em Portugal: sete dias no primeiro ano e catorze dias em cada período de dois anos subsequente.