O gigante bancário de Wall Street, Morgan Stanley, limitou os resgates num dos seus fundos de crédito privado depois de os investidores terem tentado levantar quase 11% das ações em circulação, de acordo com um documento regulatório divulgado esta quarta-feira e noticiado pela Reuters.

Uma vaga de notícias negativas, na sequência de vários problemas de crédito nos últimos meses, trouxe um novo escrutínio ao mercado de crédito privado — avaliado em cerca de 2 biliões de dólares —, à medida que os investidores questionam a saúde das carteiras de empréstimos e a resiliência dos devedores num ambiente de taxas de juro elevadas.

A Morgan Stanley Private Credit informou, numa carta aos investidores, que o fundo North Haven Private Income Fund (PIF) devolveu cerca de 169 milhões de dólares, ou aproximadamente 45,8% dos pedidos de resgate efetuados pelos investidores para o trimestre.

A potência de Wall Street sinalizou que a indústria de crédito privado enfrenta vários desafios, incluindo a incerteza em torno da recuperação de fusões e aquisições (M&A), especulação sobre a deterioração do crédito e uma contração no rendimento dos ativos.

O mercado de fusões e compras de empresas está lento e não há sinais de voltar com força total. Isso afeta o private credit porque muitos empréstimos dos fundos de crédito são usados para financiar exatamente essas operações (LBOs, aquisições alavancadas etc.). Se o M&A não recuperar bem, há menos oportunidades de novos negócios e de saídas (exits) para pagar os empréstimos antigos.

Segundo a Reuters, a Morgan Stanley afirmou que o PIF estava investido em 312 devedores de 44 setores diferentes, a 31 de janeiro, e que os fundamentos de crédito no fundo permanecem globalmente estáveis.

“Tal como comercializado e em conformidade com o divulgado no nosso memorando de colocação privada, iremos satisfazer os pedidos de resgate relativos a 5% das unidades em circulação, reportadas a 31 de dezembro”, afirmou o braço de gestão de investimentos do banco na carta citada pela agência.

O Morgan Stanley acrescentou que a limitação dos levantamentos ajudará a evitar a venda de ativos durante “períodos de desarticulação do mercado” e a maximizar os retornos ajustados ao risco para os investidores ao longo do tempo.

Ou seja evitará a venda em momentos de stress onde os preços caem abruptamente, há poucos compradores e vender ativos ilíquidos força descontos grandes (fire sales). Se o fundo vendesse empréstimos a preços baixos para pagar todos os resgates o valor restante do fundo cairia, prejudicando quem se mantém investido. Limitando resgates, mantêm os ativos até condições normais, evitando perdas desnecessárias.

“A diferença de desempenho entre créditos mais fortes e mais fracos está a aumentar”, afirmou o banco.

Analistas afirmam que o medo de que a IA possa corroer o poder de lucro das empresas de software e enfraquecer a sua capacidade de pagar empréstimos estão a propagar-se pelo private credit — um financiador fundamental para o setor tecnológico. Isto está a levar os investidores a reavaliar a exposição, os riscos de resgate e as perspetivas de captação de fundos.

As preocupações foram agravadas por novos problemas na Blue Owl relacionados com a venda de ativos, o que desencadeou uma forte vaga de vendas nas ações de gestoras de ativos alternativos com presença no mercado do private credit.

A Blue Owl (um dos maiores players em private credit, especialmente tech/software) limitou/encerrou resgates em fundos, vendeu ativos ( 1,4 mil milhões de dólares em empréstimos) para pagar a investidores que queriam sair do fundo, o que gerou desconfiança.

Entretanto, o JPMorgan Chase reduziu o valor de alguns empréstimos concedidos a fundos de crédito privado, após analisar o impacto da turbulência do mercado em torno das empresas de software, disseram à Reuters na quarta-feira duas fontes.

Os analistas continuam a apontar para o aviso do CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, feito em outubro, sobre a existência de “mais baratas” (more cockroaches) à espreita no mercado de crédito como uma potencial fonte de ansiedade para os investidores, embora, até ao momento, os problemas não pareçam ser sistémicos.

O JPMorgan Chase está a ser proativo ao reduzir o valor colateral dos empréstimos para evitar potenciais margin calls futuras no setor.

Há uma preocupação de que a qualidade dos empréstimos concedidos pelos fundos de crédito esteja a degradar-se, muitos das empresas que foram financiadas com estes fundos de crédito podem começar a ter mais dificuldade para pagar. Alguns analistas (como do UBS) chegaram a prever taxas de default de até 15% em certos cenários, especialmente com impactos de IA em setores como software/tecnologia.

O setor de private credit está a passar por um momento complicado, já que muitos investidores assustados estão a resgatar os seus investimentos. Há medo de que problemas de liquidez se tornem problemas de crédito de verdade.

No início deste mês, a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, revelou que limitou os levantamentos de um dos seus principais fundos de dívida após um aumento súbito nos pedidos de resgate. A gestora de ativos alternativos Blackstone também divulgou, a 2 de março, que o seu fundo de crédito privado, conhecido como BCRED, enfrentou uma vaga de levantamentos no primeiro trimestre.