
A novela que é o processo da Operação Marquês confirmou fragilidades já conhecidas do sistema judicial e expôs novas debilidades, de uma forma muito pública. Primeiro, é um megaprocesso, a maneira como o Ministério Público insiste em tratar estes casos, afogando-os em papel (sempre em papel) e levando-os à condenação pública e à prescrição. Devia ser designado como ultraprocesso, porque vai além do limite, ao extremo, pelo que merece o degrau seguinte nesta escala coloquial.
Depois, temos José Sócrates, que contesta o sistema, testa-o a fundo e usa todos os mecanismos à disposição, independentemente do espírito da lei. É o advogado do Diabo, que argumenta contra uma ideia instalada, objeta, para levar à reflexão. Tem uma origem católica, alguém que a igreja designava para disputar a elevação dos candidatos a santos. Aqui, para fugir de um veredito judicial, que já ninguém o safa da condenação pública.
Desde o início que este é um caso de luta renhida, um embate de egos, com o Ministério Público e um juiz de instrução particular contra um indivíduo com elevado perfil mediático. Deteve-se para investigar, atropelaram-se processos, de parte a parte, numa sucessão de estocada, parada, resposta. A justiça serve só de pano de fundo para o enredo, nada mais. Não tenhamos ilusões.
Como as mais recentes novelas televisivas, que se prolongam no tempo enquanto têm audiência, sem fim à vista, esta também ameaça eternizar-se, sempre com novos atores, reviravoltas, cliff hangers. Que fará o personagem a seguir? – perguntamos, enquanto nos passam as pipocas.
Neste caso, o epílogo não será conhecido no Campus da Justiça, independentemente do desfecho do julgamento, porque o sistema foi posto em causa e obriga a que as consequências sejam apreciadas noutro plano, na Assembleia da República. Mesmo se os políticos morrem de medo de tocar na justiça.