O conceito da Armadilha de Tucídides, desenvolvido por Graham Allison, descreve o risco de guerra quando uma potência emergente ameaça desbancar uma potência hegemónica. Originalmente aplicado à relação EUA-China, este quadro analítico revela-se agora crucial para entender a escalada de tensões envolvendo o Irão, a Rússia e a China contra os Estados Unidos e Israel.
Durante a Administração Obama, a política externa norte-americana iniciou um “pivô para a Ásia”, identificando a China como a principal ameaça. Esta postura evoluiu para uma estratégia de contenção, que incluiu uma guerra comercial agressiva iniciada por Trump e mantida por Biden. No entanto, a incapacidade de dobrar Pequim economicamente ou de derrotar Moscovo militarmente por procuração na Ucrânia levou Washington a reavaliar a sua abordagem.
O estratega Zbigniew Brzezinski alertou que a maior ameaça à hegemonia norte-americana seria uma aliança anti-hegemónica entre a China, a Rússia e o Irão. Esta coligação, em fase de consolidação, representa um desafio multidimensional. Se, no caso chinês, o confronto militar direto é considerado impensável, e no russo é travado indiretamente, o Irão surge como um alvo de confrontação mais direta para os EUA e Israel.
A aventura militar contra o Irão, contudo, não tem corrido como esperado. Décadas de preparação, iniciadas em 1984 com o desenvolvimento de capacidades balísticas próprias, tornaram o país um adversário formidável. Os ataques iranianos forçaram a retirada de bases norte-americanas no Médio Oriente, e a convicção numa vitória rápida revelou-se um erro de cálculo estratégico.
A situação atual coloca duas interrogações perigosas: qual será a reação de um Washington confrontado com uma derrota estratégica, e como agirá um Netanyahu motivado por princípios escatológicos perante a mesma perspectiva? A conjugação de um decisor considerado pueril em Washington com outro guiado por inspiração divina em Telavive cria um caldo explosivo, onde já se ouvem apelos públicos ao bombardeamento nuclear do Irão.
Estamos, assim, perante uma antecâmara da Armadilha de Tucídides. A dimensão dos danos reputacionais de uma derrota pode ser inaceitável para Washington e Telavive, aumentando a probabilidade de apostarem numa solução de soma negativa com consequências catastróficas. A passividade de outros atores internacionais perante esta eventualidade é, no mínimo, surpreendente e alarmante.