Com mais ou menos profundidade, todos temos uma noção de que o dólar norte-americano foi o grande vencedor do Tratado Bretton Woods, assinado em 1944, ainda no decorrer da Segunda Guerra Mundial e, uma das traves-mestras que, sob o comando dos EUA, ajudou a configurar o Ocidente a assumir a hegemonia global do Planeta, desde então.

Nessa conferência, que decorreu entre 1 e 22 de Julho, o dólar foi imposto como moeda dominante ao sistema financeiro mundial, apesar da oposição do Reino Unido, através de Keynes, o seu representante, que nada conseguiu, pois, a força, incluindo a militar, estava com os EUA. E, para quem tem a força e a privilegia, nas relações internacionais, para domínio dos outros países, contra a cooperação negociada, não são precisas mais palavras!

Ao longo dos longos anos de hegemonia americana, o dólar exorbitou, muitas vezes, pela mão dos seus dirigentes políticos, a sua esfera natural (sistema financeiro), para ser usada como ferramenta de punição, por exemplo, nas sanções económicas coercitivas, no congelamento de activos (reservas), em bloqueios transaccionais… Tudo isto se passou, ao longo desse período e, mais recentemente, com a Rússia e a Venezuela.

Esta dupla função foi gerando perplexidade, incertezas, receios e rejeição no Mundo não Ocidental e levou a que se gerassem movimentos consistentes, tendentes a reduzir cada vez mais o campo de incidência e de intervenção do dólar. Tornear o dólar norte-americano tornou-se um alvo imperioso ao funcionamento regular da comercialização e dos pagamentos internacionais e até da relação entre os povos.

Por outro lado, a economia mundial ia evoluindo e a acusar cada vez mais perdas de prestígio e competência económica no aparelho produtivo, nas redes de comercialização, nos minerais críticos, nas baterias, no automóvel eléctrico, nas energias renováveis, na IA… Tanto assim é, que o Ocidente, dominando ainda áreas de ponta da tecnologia, sente-se, porém, acossado e recorre a métodos menos próprios e pouco competitivos para impedir transações, por exemplo de chips altamente sofisticados, o que não passa de um certo disfarce (sabendo que não é a solução), pois cada vez menos a economia e a competitividade se ganham “na secretaria”, mas na ciência e organização da mesma, no conhecimento e sua aplicação às estruturas produtivas.

A longa hegemonia norte-americana do mundo assentou também em instituições cuidadosamente alimentadas na defesa dos interesses do Ocidente, como o FMI e o Banco Mundial e a própria ONU, instituições essas também saídas dessa Conferência, Instituições que se foram distanciando da realidade mundo em mudança, embora, nunca estivessem ajustadas, porque formatadas, desde a raiz, para responder e defender os interesses do grande vencedor da Segunda Guerra. Mesmo “os parceiros”, como os países da Europa ocidental, só tinham acesso limitado às benesses do sistema, apesar do Plano Marshall, que existiu, porque interessava aos EUA (criação de mercados).

BRICS. Mudança de paradigma hegemónico e a Europa

Jeffrey Sachs, um dos economistas mais influentes da actualidade, antecipa numa entrevista recente (21 de Janeiro), que a relevância da hegemonia do dólar norte-americano cairá drasticamente nos próximos 10 anos, apontando 2035 para a sua banalização, ou seja, uma moeda ao nível de muitas outras.

Assenta esta mudança estrutural do sistema financeiro mundial em três eixos principais:

  • O uso indevido do dólar, como “arma de guerra” no ataque aos interesses de muitos outros países, confiscando reservas, impedindo transacções internacionais o que veio criar um incentivo forte à desdolarização, levando nações/blocos como os BRICS a procurar alternativas para evitar sanções e controlos financeiros. Em todo o mundo não ocidental, a procura de alternativas tornou-se quase uma missão e começam a aparecer soluções prometedoras e eficientes ao nível dos BRICS, aliás, uma das temáticas principais de debate na Presidência da Índia (2026), de que falaremos em próximo artigo.
  • O aumento da participação das moedas digitais nos pagamentos internacionais, através da participação dos Bancos Centrais, rompendo com o sistema SWIFT, controlado pelos EUA, o que, deste modo, acelerará a fragmentação do sistema Bretton Woods.
  • A dívida e o desequilíbrio fiscal que advirão de todas estas mudanças, contribuirão para a insustentabilidade da dívida nacional dos EUA e ruptura de confiança internacional no dólar. Isto equivale a mudar do avesso a economia dos EUA, desde a subida de juros da dívida e dificuldades acrescidas na obtenção de empréstimos, ou seja, os EUA vão ter de enfrentar os mesmos problemas de qualquer outra economia.

Para Sachs, o fim do domínio do “Atlântico Norte” bate à porta e quanto mais a centralidade económica se desloca para a Ásia, o que desde há muito é uma tendência robusta, pior ainda a situação.

Jeffrey Sachs não está só. Com ele, vários prémios Nobel como Stiglitz, Mundell, Kenneth Rogoff e ainda o conhecido antropólogo e historiador francês, Emmanuel Todd, que recentemente publicou a obra “a Derrota do Ocidente”, e outros artigos posteriores sobre este mesmo assunto.

Todd olha para o declínio Ocidental como sintoma de desintegração mais ampla das estruturas sociais e industriais dos EUA e vê o Mundo a caminho da Multipolaridade, onde países como a Rússia, China, Índia, Brasil… e o grupo BRICS vão desempenhar papeis centrais, corroendo o Mundo Unipolar do Ocidente sobre as finanças globais.

Nesta antecipação de perda de hegemonia do Ocidente, o “bloco” ocidental, à partida mais vulnerável é a União Europeia que, sem autonomia estratégica e cada vez mais dependente dos EUA, a juntar agora a herança da dependência energética dos EUA a elevado custo, sem unidade interna em vários domínios básicos, corre o risco de “descer de divisão”, como potencial polo na reorganização mundial da Multipolaridade. A autonomia estratégica, em que agora se diz apostada, não pode ser erguida sem rupturas, por exemplo na NATO, (a UE precisa do seu sistema de defesa autónomo e não em dependência) e de uma forte refundação da UE na construção de entendimentos comuns, entre eles, o da energia, a vertente mais básica de todos.

Os erros estratégicos que a UE cometeu ao alargar sem consolidação o que existia (será que têm corrigíveis?) podem tornar-se muito caros e os próprios EUA também terão de defender a sua posição, no novo contexto, sem dar apoio algum à Europa até porque está “a correr” em terreno agreste, sem receio de atropelar a própria Europa.

Não estarei só nesta linha de pensamento (interrogação) da ruptura transatlântica, pois até Mark Carney, em Davos, proferiu uma frase maldita para muitos ouvidos, sempre incrédulos: “rupture, pas transition”, como primeira conclusão da situação de choque EUA-UE sobre a Gronelândia.

Tempos “bravos” andam por aí. O Ocidente está longe de saber antecipar a sua queda e a Europa ainda menos preparada estará para este tsumani mundial. Pensar/Preparar/Preocupar-se com a refundação da Europa, neste novo contexto mundial, requer ponderação, determinação e acção. As dúvidas são muitas e determinação não existe. Falta espírito de ruptura. O ambiente é de conflito e reina um vazio de ideias paralisante.