Há histórias que atravessam séculos porque revelam, de forma simples e quase cruel, verdades que preferimos não ver. O Rei Vai Nu, o célebre conto popular eternizado por Hans Christian Andersen em 1837, é uma delas. Um rei vaidoso, obcecado pela aparência, deixa‑se enganar por dois vigaristas que lhe prometem um tecido mágico, invisível para os tolos ou incompetentes. Receoso de ser tomado por um deles, finge ver o que não existe. E todos à sua volta, com idêntico receio, agem do mesmo modo. Num desfile público, iludido pelos vigaristas, o rei apresenta-se completamente nu. Só uma criança, ingénua e sincera, ousa dizer o evidente: “O rei vai nu!” A multidão que assistia, liberta-se dos constrangimentos e assume aquilo que era evidente e sempre soube, mas temia admitir.
Vem esta história a propósito da intervenção do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no último Encontro Anual do Fórum Económico de Davos. Ele surge, precisamente, como a criança que, no contexto atual das relações internacionais, afirma que a realidade deve ser vista como ela é e não como desejaríamos que fosse, partilhando a postura epistemológica e ética defendida por Bertrand Russell em plena Guerra Fria, que insistia que a sabedoria começa quando aceitamos os factos tal como são, e não como desejaríamos que fossem.
“O mundo está a assistir ao fim de uma bela história e ao início de uma realidade brutal, onde a geopolítica entre as grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições” — afirma Carney no início da sua intervenção. E continua, recorrendo desta vez a um aforismo de Tucídides, ao sublinhar que a ordem baseada em regras está a desaparecer e que “os fortes fazem o que podem e os fracos fazem o que devem”.
Perante esta lógica, tende a surgir entre os países uma inclinação para ceder, na esperança de que a acomodação assegure a harmonia e a segurança. Assim, continuam a praticar rituais falsos que se sabe que o são. Todos repetem e se conformam, até que alguém deixa de representar. E a ilusão coletiva, favorecida pela estabilidade global do sistema, começa a ruir.
Carney reconhece que a situação que o mundo atravessa é de ruptura, não de transição. A ordem coletiva do passado tornou-se impotente para assegurar as necessidades do presente. As instituições internacionais onde as pequenas e médias potências, como o Canadá, tradicionalmente se apoiavam e a arquitetura multilateral de resolução coletiva de problemas, encontram‑se, na sua opinião, profundamente enfraquecidas, se não mesmo moribundas.
A intervenção de Carney vai ainda mais longe e não se exime a indicar a atitude que deve ser tomada: não a preocupação em recuperar um equilíbrio que já não voltará, mas a procura de uma nova arquitetura das relações internacionais, capaz de assegurar a autonomia estratégica das pequenas e médias potências, como o Canadá.
Mas um mundo de fortalezas seria mais pobre, mais frágil e menos sustentável. O objetivo não deve ser cada país seguir o seu caminho isoladamente, mas sim reunir esforços para construir um novo estado de relações que transcenda a soma das partes envolvidas. Um novo estado qualitativo de relações que combine a redução das vulnerabilidades a represálias, o reforço das indústrias nacionais e a diversificação, com uma geometria variável de parcerias orientadas para objetivos concretos que convirjam para o bem comum e para o progresso coletivo.
Trata‑se, sem dúvida, de uma intervenção corajosa, inovadora, de ruptura com o senso comum instalado e de combate à passividade. E que deve ser considerada uma referência também para a intervenção da Europa, tanto no plano interno como na sua diplomacia e ação internacional.
A Europa tem, porém, meios, escala e responsabilidade para não simplesmente reagir, mas para moldar a nova ordem. Este é o grande desafio.