A questão não surgiu num painel de discussão ou num debate televisivo. Ela surgiu discretamente e, depois, de forma cada vez mais insistente (e ruidosa), em conversas com pessoas em quem confio, respeito e amo, amigos e familiares que, como muitos de nós, tentam entender um mundo que parece cada vez mais incoerente.

Por que razão, perguntaram eles, no Ocidente, manifestantes saem à rua por causa de Gaza, enquanto a repressão continuada no Irão não suscitou uma mobilização comparável? Não será isso uma evidência de um duplo padrão: de indignação seletiva, de conveniência ideológica e até mesmo de uma indulgência tácita para com a República Islâmica, desde que ela continue hostil a Israel e aos Estados Unidos?

É uma pergunta incómoda e, precisamente por isso, merece uma resposta séria. Não uma resposta defensiva e, certamente, não uma resposta arrogante. Mas sim uma resposta assente na realidade política, e não na responsabilidade moral.

A tentação de comparar Gaza e o Irão é compreensível. Ambos envolvem imenso sofrimento humano. Ambos nos confrontam com imagens de violência, repressão e vidas ceifadas. No entanto, forçá-los a encaixar no mesmo quadro moral é não compreender a natureza destas tragédias, assim como os limites e as responsabilidades da própria solidariedade.

Gaza é palco de uma guerra externa, conduzida por um Estado que conta com amplo apoio militar, diplomático e político dos governos ocidentais. O que está a acontecer em Gaza não é apenas devastador em termos humanos, mas também envolve graves violações do direito internacional humanitário, como tem sido amplamente documentado. Desde o uso desproporcional da força aos ataques a infraestruturas civis e obstrução à assistência humanitária. Neste contexto, os protestos visam não só a violência em si, mas também a cumplicidade que a torna possível. As manifestações tornam-se uma forma de pressionar, ainda que de forma imperfeita, as instituições que afirmam agir em nosso nome. Marchar em Lisboa, Londres, Paris ou Berlim traz consigo uma exigência implícita: “não com o nosso consentimento”.

O Irão é diferente. A violência é interna, sistémica e recorrente. A revolta que se seguiu ao assassinato de Mahsa Amini não foi um começo, mas sim um episódio numa longa sequência de revoltas, em 2009, em 2017-18, em 2019 e posteriormente, cada uma delas recebida com violência e repressão brutais, cada uma deixando para trás os seus mortos, os seus prisioneiros e os seus silêncios. As manifestações e os assassinatos em massa em janeiro de 2026 também não foram uma anomalia, mas uma continuação desse padrão, tornado mais brutal pela crescente vontade do regime de dispensar qualquer restrição.

O que distingue estas revoltas não é a sua novidade, mas a sua clareza. Não foram apelos à intervenção estrangeira, nem pedidos para serem resgatados pelo poder ocidental. Foi uma demonstração de livre-arbítrio: abertamente seculares, assumidamente antiautoritárias e explicitamente hostis ao Islão político. Os iranianos voltaram às ruas sabendo exatamente qual poderia ser o custo dessa decisão.

Para entender por que razão essa resistência tem perdurado e a repressão tem sido tão feroz, teremos de esforçar-nos para compreender melhor a natureza da sociedade iraniana e do Estado que a governa. O Irão não é feito de uma população passiva governada por clérigos, nem uma sociedade congelada na conformidade ideológica. É uma sociedade altamente educada, urbanizada e politicamente alfabetizada, marcada por um profundo pluralismo social e uma longa história de mobilização. Como o sociólogo iraniano Asef Bayat há muito argumenta, a dissidência no Irão muitas vezes assume a forma do que ele chama de “não-movimentos sociais”: atos dispersos e quotidianos de desafio que, nas condições certas, explodem em confronto aberto. Isso ajuda a explicar porque as revoltas se repetem apesar da repressão esmagadora e por que não são facilmente neutralizadas apenas com prisões ou intimidação.

O Estado que confronta esta sociedade é igualmente complexo. A par de instituições formais, como o parlamento e a presidência, existe uma arquitetura paralela de poder centrada no gabinete do Líder Supremo, na Guarda Revolucionária Islâmica e em vastas fundações económicas que dominam setores chave da economia. Este sistema dual permite ao regime absorver a pressão, desviar a culpa e continuar a exercer violência sem qualquer responsabilização institucional. Como demonstrou o trabalho da académica iraniana Dra. Helyeh Doutaghi, a pressão externa e a repressão interna são frequentemente fundidas através de um discurso que redefine a soberania de classe e o poder da elite como questões de defesa nacional, escudando a dominação com a linguagem da sobrevivência. Sob condições de sanções, ameaças militares e retórica de mudança de regime, a violência contra a dissidência é recodificada como sobrevivência e a dominação como resistência.

Essa estrutura também resulta numa profunda assimetria. Enquanto os manifestantes no Irão lutam literalmente com suas vidas, enfrentando munições reais, detenções em massa e desaparecimentos forçados, a diáspora iraniana permanece historicamente fragmentada. Divididos entre uma corrente monárquica que pugna por uma restauração nostálgica e um eleitorado mais amplo profundamente cético em relação à liderança baseada na herança e não na legitimidade, os debates no seio da diáspora são frequentemente amplificados nos media ocidentais e nas plataformas digitais. Mas até que ponto essas disputas se assemelham à realidade que aqueles que resistem dentro do país enfrentam? Até que ponto existe o risco de obscurecerem, em vez de esclarecerem, a natureza da própria luta?

É importante compreender este contexto quando se apela ao Ocidente para “fazer mais”. A pressão externa raramente enfraqueceu este sistema. Sanções enquadradas como instrumentos morais, apelos abertos à revolta vindos do estrangeiro, políticas diplomáticas arriscadas e até ataques militares diretos têm tido, consistentemente, o efeito contrário, consolidando fações da linha dura, reduzindo o espaço cívico e permitindo que os atores mais repressivos se escondam atrás da retórica da defesa nacional. Os acontecimentos de janeiro de 2026 ilustram isso com triste clareza. À medida que os protestos se disseminavam pelo país, a resposta das cúpulas do Estado não foi a reforma ou a hesitação, mas a provocação ostensiva. Foram dadas ordens claras para disparar sobre os manifestantes, as comunicações e as ligações à internet foram cortadas e seguiu-se uma onda de repressão, cujo lastro, trágico, se cifra em 30.000 pessoas mortas, desaparecidas ou presas. O comportamento em questão remete para um regime à beira do colapso ou para um regime determinado a sobreviver a qualquer custo?

É aqui que a acusação de duplo padrão geralmente se intensifica. Se o público ocidental consegue mobilizar centenas de milhares de pessoas contra a guerra de Israel em Gaza, por que razão não há um clamor comparável ante o assassínio em massa de iranianos pelo seu próprio Estado? A indignação passou a ser condicionada pela identidade do perpetrador? A oposição a Israel tornou-se o atalho moral através do qual o sofrimento se torna visível?

A acusação é tentadora, mas assenta numa falsa equivalência.

Os protestos respondem não só à violência, mas também à influência percecionada. E isso também leva tempo: foram necessários meses para que as manifestações em massa por Gaza atingissem a sua escala atual. A mobilização é cumulativa, moldada pela atenção dos media, pelo posicionamento político e pela lenta formação de uma linguagem moral comum. No caso de Gaza, os governos ocidentais não são observadores distantes. Eles são fornecedores de armas, cobertura diplomática e legitimidade política. Os protestos são, pois, direcionados para dentro, para centros de poder que podem ser pressionados de uma forma plausível. O Irão não oferece esta linha de influência. Há pouca ilusão de que uma manifestação numa capital europeia altere as decisões tomadas em Teerão ou no seio das estruturas de comando da Guarda Revolucionária.

Neste contexto, como deve a solidariedade, ou qualquer outra expressão que queiram usar para descrever o envolvimento responsável, manifestar-se? No mínimo, deve começar por um esforço inabalável para ouvir as vozes de dentro do Irão: ouvir como os iranianos descrevem as suas próprias lutas, esperanças e limites, em vez de projetar soluções sobre eles. Deve também reconhecer que contenção não é indiferença, nem uma forma subtil de apoio ao brutal regime da República Islâmica do Irão, e que o envolvimento ético nem sempre é imediato ou espetacular. A ausência de mobilização em massa não é necessariamente um sinal de indiferença. Pode refletir um reconhecimento tácito de onde a influência começa e termina. Visibilidade não é o mesmo que preocupação, e o silêncio não é prova de consentimento.

Mas alguns críticos vão mais longe, argumentando que as revoltas iranianas se tornaram um dilema incómodo para parte da esquerda ocidental, porque não se enquadram num guião convencional. Não são antiocidentais. Não se prestam ao romantismo revolucionário. Rejeitam o islamismo político, em vez de o utilizar como arma. Não há um vilão externo claro sobre quem se possa projetar a culpa, nem uma narrativa colonial pronta a ser reciclada.

Há um elemento de verdade nisto, mas este é facilmente empolado. O que este desconforto revela é menos uma defesa ideológica da República Islâmica e mais uma dificuldade em responder a movimentos que resistem à apropriação. A solidariedade habituou-se a falar pelos outros, não a ouvi-los. Quando uma luta insiste nos seus próprios termos – plural, secular e impulsionada internamente – perturba hábitos de alinhamento que dependem de uma simples dualidade.

O perigo reside em confundir desconforto com cumplicidade, pois estreita o livre-arbítrio dos iranianos e reduz uma sociedade complexa a um mero peão nas disputas ideológicas ocidentais. Também transforma a solidariedade num exercício competitivo, onde as causas são classificadas e trocadas entre si, em vez de compreendidas nos seus próprios termos.

Será que as revoltas iranianas nos confrontam com uma verdade incómoda, a de que nem toda a resistência convida à nossa participação? Será que algumas lutas não pedem as nossas marchas ou os nossos slogans, mas sim que resistamos a projetar as nossas próprias ansiedades sobre elas? Se assim for, isso não é um argumento a favor do silêncio, mas sim de uma disciplina mais exigente, baseada na atenção e no respeito pelo livre-arbítrio.

A solidariedade, entendida neste sentido mais estrito, não se mede em decibéis nem pelo número de manifestantes. Mede-se pelo facto de as ações tomadas em seu nome reduzirem os danos, respeitarem o livre-arbítrio e evitarem fortalecer as estruturas que afirmam combater. A ser assim, muito do que é exigido sob o mote “fazer mais” terá exatamente o efeito contrário.

Gaza e o Irão não são reivindicações concorrentes na nossa consciência. São crises distintas que exigem respostas diferentes, moldadas por diferentes configurações de poder, responsabilidade e possibilidade. Insistir no contrário é transformar a preocupação moral num cálculo, que mede, classifica e negocia o sofrimento em vez de exercer juízo político.

A haver aqui uma falha exposta não é a da compaixão, mas da disciplina política, da nossa capacidade de responder à injustiça sem a simplificar, instrumentalizar ou distorcer em prol de narrativas que nos fazem sentir moralmente coerentes. Estaremos preparados para apoiar lutas que não enaltecem os nossos guiões? Poderemos aceitar movimentos que resistem tanto à dominação quanto à apropriação?

Apoiar o povo iraniano não significa escolher os seus líderes, provocar guerras em seu nome ou forçar a sua luta a encaixar-se em guiões que sirvam os nossos próprios interesses políticos. Significa fazer perguntas mais difíceis, resistir à simplificação, rejeitar falsas equivalências e reconhecer o quanto não sabemos. A resposta mais honesta pode não estar na certeza, mas na atenção e no reconhecimento de que, por vezes, a forma mais responsável de solidariedade não é a mais ruidosa, mas aquela que prioriza a ação e se recusa a instrumentalizar a luta de outra sociedade para o seu próprio conforto moral ou ideológico.

Não pretendo ter uma resposta definitiva para explicar por que razão algumas tragédias nos mobilizam mais rapidamente do que outras. Mas estou convencido de que continuar a fazer as perguntas certas – sobre poder, livre-arbítrio e responsabilidade – é mais importante do que procurar equivalências fáceis.

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