O atual projeto de poder de Recep Tayyip Erdoğan recusa a condição de potência regional para se afirmar como um exercício revisionista neo‑otomano. Sustentado na convergência entre islamismo político e nacionalismo, Ancara reconfigura o espaço euro‑asiático através de instrumentos híbridos que transformam a instabilidade em vetor de projeção estratégica.
Conforme analisam diversos observadores internacionais e centros como o Institute for the Study of War, a retórica antiterrorista funciona como pretexto para uma conivência seletiva com o radicalismo, coordenando com o grupo HTS uma ofensiva sistemática contra Rojava (a Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria, um projeto de autogoverno multiétnico e secular liderado pelos curdos que se tornou o principal baluarte contra o extremismo na região).
Esta estratégia atinge o seu ponto crítico na reorganização de combatentes do Daesh sob tutela turca. Relatórios do Syrian Observatory for Human Rights apontam que a queda de Al‑Shaddadi e os ataques a centros de detenção abriram espaço à fuga de cerca de 1.500 jihadistas em plena ofensiva anticurda, criando um risco direto para a segurança europeia. O contraste histórico é evidente: enquanto bairros curdos em Alepo, como Sheikh Maqsoud, caíram para forças coordenadas entre Damasco e Ancara, cidades como Kobane e Hasakah enfrentam hoje um cerco total que o Movimento do Povo do Curdistão classifica como prelúdio de um risco existencial para as populações curdas.
Esta agressão desenvolve‑se sob a ambiguidade de Washington. Através de emissários como Robert O’Brien e Tom Barrack, a administração Trump pressiona as SDF para soluções que, na prática, significam a sua dissolução faseada e submissão ao novo poder em Damasco. Os desenvolvimentos das últimas 48 horas confirmam esta trajetória: um prolongamento do cessar‑fogo que, sob a aparência de desescalada, mascara a entrega de Raqqa, Deir ez‑Zor e dos campos petrolíferos ao governo central sírio.
A traição é transacional: ao remover os curdos da linha da frente, facilita‑se um corredor sob influência de grupos islamistas entre a Síria e o Iraque, que vários atores regionais interpretam como potencial plataforma para futuras operações terrestres contra o Irão. Este reposicionamento coincide com o reforço naval norte‑americano, do Índico ao Mediterrâneo oriental, com a deslocação de grupos de porta‑aviões como o USS Abraham Lincoln e o USS George H.W. Bush. Não altera a essência da política, mas sublinha a prioridade estratégica de Washington noutros tabuleiros, deixando o norte da Síria entregue a rearranjos de conveniência que ignoram o risco de uma retaliação iraniana contra alvos ocidentais no Iraque.
O expansionismo turco projeta‑se além de Rojava, do Cáucaso a Gaza, mas é na aniquilação da autonomia curda que Ancara encontra o seu pilar central. Não por acaso, o governo turco celebrou oficialmente os recentes avanços como um passo importante rumo aos objetivos regionais da Turquia, uma admissão pública da natureza expansiva do seu projeto. A continuidade desta estratégia depende da complacência internacional.
Resta saber se a Europa aceitará que a sua segurança dependa da previsibilidade de um regime que utiliza o caos jihadista para expandir as suas fronteiras imperiais, sacrificando os únicos aliados que, no terreno, demonstraram ser o derradeiro bastião contra este autoritarismo de matriz islamista.