Pessoas sem eletricidade, sem água, sem comunicações. Milhares de casas danificadas ou destruídas, infraestruturas e fábricas arrasadas, negócios de empresas devastados, empregos eliminados. Autarquias a improvisar e a apelar à mobilização de meios por parte do Governo. Populações à espera. Mais de quatro mil milhões de euros de prejuízos.
Este é o retrato da devastação deixada pela tempestade Kristin que levou a cinco vidas perdidas e outras tantas a arranjar telhados. Um panorama dantesco, com Leiria, um dos concelhos mais atingidos, e outras regiões, a acordar ante um cenário de guerra que exige uma resposta de emergência firme, visível e imediata. Sobressaem os apelos das vítimas e autarcas incansáveis que desde a primeira hora sinalizaram os danos da catástrofe.
Parece que não aprendemos com o passado, como no apagão, com os manuais a ficarem na gaveta, ou nos fogos do verão passado, com o Governo a tentar correr atrás do prejuízo e a passar uma imagem de abandono das populações afetadas que não sentem o auxílio no tempo devido. Uma semana após a Kristin, milhares ainda não têm teto nem energia elétrica e ainda se está a avaliar se era preciso acionar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, ignorando a prontidão de Bruxelas de poder ajudar o país através do envio de geradores, o bem mais procurado por estes dias. Um mecanismo que tardou a acionar nos fogos, dando à oposição margem para explorar perceções de falta de empatia do Governo.
Fica novamente o lamento das populações por se sentirem abandonadas por um governo que escolheu a lógica da invisibilidade perante a tragédia e da “aprendizagem coletiva”.
Tem de haver voz de comando, com apoio logístico, coordenação clara e presença efetiva no território nas horas iniciais mais críticas de uma crise. Garantir que o Estado está verdadeiramente ao lado de quem sofre não pode resumir-se a vídeos de propaganda. No rescaldo da depressão, a ministra da Administração Interna admite que não sabe o que falhou na ajuda e cooperação aos bombeiros e autoridades no terreno.
Exigia-se nesta catástrofe uma liderança visível no epicentro das necessidades. A onda de solidariedade não pode substituir-se ao Estado central em dar respostas à população. E a resiliência há décadas discutida no país não pode continuar a falhar: onde está o reforço das infraestruturas e das redes energéticas capazes de resistir a eventos extremos? E o investimento nas redundâncias das comunicações?
Ao 5º dia, o Governo anunciou apoios para fazer frente aos estragos da tempestade que podem atingir os 2,5 mil milhões de euros. São positivos, mas insuficientes, dizem as associações empresariais. Esta catástrofe não se abateu apenas sobre Leiria ou a Marinha Grande. Também expôs a incapacidade de o Estado responder a fenómenos extremos, que tendem a repetir-se. E quando deixam de ser raros, o improviso não serve como resposta.
Mais. O governo tardou em perceber a dimensão da tragédia e falhou na mobilização de meios, evidenciando a incapacidade estrutural de antecipar e planear. No novo normal de crises frequentes, urge ter mecanismos automáticos e decisão rápida, ou o Estado continuará a reagir sempre tarde e a remendar. A velocidade da resposta é o que distingue um Estado que funciona de um Estado frágil. Não é evitar a tempestade, pois o vento não se trava com as mãos.