As mortes que já resultaram da ação do Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla inglesa) são trágicas, absurdas. São um sinal de falhanço numa sociedade, um desperdício. Mas mais chocante é o vídeo em que alguém é interpelado por esta autoridade, nos subúrbios da cidade de Minneapolis, no Minesota. Um agente da ICE pede a documentação a um homem que se encontra frente à sua casa e que questiona o porquê de o fazerem especificamente a ele. “Ouvindo o seu sotaque, tenho razões para acreditar que não nasceu neste país”, responde o agente. E soam campainhas de alarme por todo o lado. Deviam soar.

“Você também tem sotaque, onde nasceu”, replica o homem, que é detido. Mais sinais de aviso, luminosos, berrantes, deveriam disparar em todas as consciências. Não é pela situação concreta, é por todas as que este momento promete, mesmo com a acalmia depois da polémica. Alguém é interpelado pelas autoridades na rua por causa do seu sotaque, pela forma como fala. Num país imenso e multifacetado como os Estados Unidos da América, feito por imigrantes, com 350 milhões de habitantes das mais diversas proveniências, perdidas na história, é ridículo. Nem todos descendem dos 102 migrantes britânicos do Mayflower que ajudaram a criar o imaginário fundacional norte-americano.

A história conta-nos que atrás desta batalha vêm outras. Que agora é o sotaque, mas que se seguirá a cor da pele e tudo o que me diferenciar do outro, o suspeito do costume. Mas a mesma história conta-nos que quando os peregrinos atingiram o que é hoje o Massachusetts, a terra já era habitada. Ali, pelos Wampanoag. Gente com uma linguagem diferente e, certamente, com um sotaque diverso daquele que trazia o invasor. Mesmo assim, acordaram a paz e reza a lenda que foi do trabalho comum nas colheitas que nasceu o primeiro dia de ação de graças. Outros tempos.