O dinheiro físico, outrora predominante nas transações financeiras, tem cedido espaço a métodos digitais que privilegiam rapidez, conveniência e segurança. Atualmente, não é raro pagar um café com um smartphone ou até um smartwatch. Esta transformação cultural evidencia novas formas das sociedades modernas se relacionarem com o dinheiro, cada vez mais mediadas por plataformas digitais e dispositivos móveis.

A popularização de soluções de pagamento digitais contribuiu para acelerar esta tendência. Estas formas alternativas de pagamento dispensam a necessidade de transportar dinheiro, simplificam pagamentos e tornam as compras mais rápidas, desde supermercados a transportes públicos. Para os consumidores, a experiência é prática e, para muitos, intuitiva. De facto, de acordo com um estudo desenvolvido no ano passado pela Nickel, em parceria com a DATA E, 37% dos portugueses já utilizam pagamentos contactless, seja através de cartão físico ou de aplicações móveis.

Outra alternativa digital que começa a surgir no mercado de pagamentos é a biometria, através do reconhecimento facial, da leitura de impressões digitais ou da autenticação por íris, que permitem validar operações de forma praticamente instantânea. Em Portugal, diversas instituições bancárias e fintechs têm adotado estes sistemas para desbloquear apps ou autorizar pagamentos sem necessidade de códigos ou palavras-passe. Para além de simplificar a experiência do utilizador, estas soluções contribuem para reduzir o risco de fraude.

Não obstante, a crescente sofisticação tecnológica não significa que o dinheiro físico esteja prestes a desaparecer. Pelo contrário, o mesmo estudo da Nickel e da DATA E indica que mais de um quarto dos portugueses continua a utilizar numerário no dia a dia, enquanto cerca de 43% ainda realiza depósitos em dinheiro, um valor que até registou um aumento nos últimos anos.

Ainda como base no mesmo estudo, embora a maior parte dos portugueses indique depositar numerário esporadicamente, a possibilidade de o poderem fazer é valorizada pela grande parte dos portugueses, com mais de 40% a atribuir mesmo uma importância muito elevada. Portanto, apesar da digitalização, o dinheiro físico mantém uma função prática e simbólica na economia quotidiana.

No fundo, esta coexistência entre meios digitais e tradicionais não só é inevitável como também desejável. Num contexto cada vez mais dependente da tecnologia, e se considerarmos o atual cenário geopolítico e instabilidade energética a que temos assistido, depender somente de pagamentos digitais pode revelar-se arriscado e ter algum dinheiro, em numerário, é mesmo uma boa prática, também como indicado em 2025, pela Comissão Europeia, aquando da divulgação da estratégia de preparação para os desafios atuais, através da recomendação de um kit de emergência

Por outro lado, a redução progressiva de balcões bancários e de serviços presenciais levanta questões sobre inclusão financeira e acesso aos serviços. Nem todos os cidadãos dispõem da mesma literacia digital e residem em centros urbanos com acesso fácil a infraestruturas bancárias. Para muitos, o atendimento presencial permanece como o único ponto de contacto com o sistema financeiro.

O futuro dos pagamentos em Portugal dificilmente passará por uma escolha absoluta entre o digital e o físico. O mais plausível será, provavelmente, um modelo híbrido, no qual convivem smartphones, cartões, biometria, tokenização e numerário. O desafio será encontrar um equilíbrio que permita aproveitar as vantagens da modernidade sem abdicar da segurança e da autonomia que o dinheiro físico ainda representa. Afinal, pagar em numerário ainda está na moda.