Longe vai o tempo em que o hit das Baccara “Parlez-vous français?” animava as pistas de dança e a língua do amor e das férias era o primeiro idioma estrangeiro nas escolas portuguesas. O francês perdeu para o inglês, que universalizou, mas não morreu. O seu valor está, afinal, no mercado de trabalho.
“As empresas francesas contratam jovens qualificados e pagam bons salários”, afirma Pascal Sanchez ao Jornal Económico (JE). O retrato traçado pelo Adido de Cooperação Linguística e Educativa da Embaixada de França em Portugal mostra mais de 750 empresas de todas as dimensões e variedades, incluindo 38 das 40 cotadas no índice bolsista CAC40. As francesas operam em todos os setores mais importantes da economia: automóvel, aeronáutico, serviços, digital, turismo, imobiliário, hotelaria, energias renováveis, grande distribuição, têxtil, calçado, garantindo uns expressivos 132.336 empregos. Trata-se do maior empregador estrangeiro no país.
Pascal Sanchez considera que o leque de oportunidades oferecido por estas empresas tem poder para mitigar uma realidade que ganhou dimensão este século – a chamada “fuga de cérebros” – que levou milhares de jovens a abandonar o país na perspetiva de um salário melhor. O francês apresenta-se, como ‘fixador’ de talento ao contrário do inglês, que, sendo aceite como língua de trabalho em muitos países, funciona, na prática, como passaporte para a emigração dos portugueses.
Na maioria, as francesas oferecem empregos qualificados e muito qualificados. Oportunidades não faltam e nem todas estão a ser aproveitadas. Portugal vive uma situação próxima do pleno emprego, o que torna muito difícil recrutar, mais ainda com as especificidades requeridas, explica Laurent Marionnet, diretor-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa (CCILF) ao JE. A instituição tem 700 sócios. “No geral, reportam dificuldade em recrutar pessoas que falam francês, o que é um grande problema, pois muitas dessas empresas têm aqui um bom negócio numa ótica internacional e precisam de falantes para desenvolver o mercado francófono”, justifica.
Num passo pioneiro que visa informar jovens, escolas e famílias das vantagens do “parler”, a Embaixada de França em Portugal, o Institut Français du Portugal e Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa lançaram uma cruzada estratégica conjunta. Laurent Marionnet apresenta o propósito: “Tentar sensibilizar as autoridades da educação e o mundo universitário que é do interesse das empresas francesas, mas também do interesse do futuro de Portugal que se dinamize o francês”.
Num debate aberto, realizado no Porto e Lisboa, empresas e instituições de ensino procuraram caminhos. Maria Gabriela Moreira, diretora do Agrupamento de Escolas Frei Gonçalo de Azevedo em São Domingos de Rana, defendeu a abertura da caixa de pandora. “As empresas têm que se mobilizar e mostrar que a França tem muito valor. É necessário dar a conhecer todo o potencial do francês não só como língua, mas também como passaporte para um emprego”. António Castelo Branco, diretor do Agrupamento de Escolas Ferreira de Castro em Sintra, revelou que usa música e filmes, e no geral o poder da comunicação para remar contra a maré e impulsionar o francês junto dos alunos.
Ao JE, Pascale Gautrot-Lamoureux, Diretora Lycée Français Charles Lepierre, em Lisboa revela que a instituição tem 2080 alunos, dos quais cerca de 50% são franceses ou filhos de franceses, 40% portugueses e 10% de outras nacionalidades. O liceu, diz, está “muito atento às necessidades do tecido económico franco-português”, o que reforça a missão de “formar alunos plurilingues e incentivar o estudo do francês junto de um público variado, incluindo lusófonos”.
Alguns estudantes serão sensíveis aos argumentos de Pascal Sanchez: “Um curso de engenharia ou de gestão e um bom nível de inglês já não fazem a diferença para chegar a um lugar de responsabilidade numa empresa francesa. O francês é o factor diferenciador”.
Por fim, há um dado que também conta: o legado confiável da França no comércio e no investimento em Portugal.