Bolha na inteligência artificial (IA)? Esta será por ventura uma das perguntas mais complexas que atormentam as bolsas mundiais. Os avultados investimentos nesta tecnologia, por parte das grandes empresas tecnológicas, tem feito tremer os mercados, e o receio do investidores sobre o respetivo retorno já mergulhou por diversas vezes os mercados no vermelho.

Apesar da complexidade da resposta à pergunta o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Monteiro Rosa, em entrevista ao Jornal Económico (JE), é claro: “Qualquer desaceleração nas bolsas, ou queda, pode inverter o atual ciclo virtuoso de subida e transformá-lo num ciclo vicioso de descida”.

Em seguida o economista dá conta de alguns dos gatilhos (ou triggers na tradução inglesa) que poderiam levar a um rebentar de uma bolha na IA. Entre esses fatores, defende Paulo Monteiro Rosa, estaria uma “queda abrupta da procura de unidades de processamento gráfico (GPU), atrasos na adoção empresarial ou sinais de saturação de capacidade nos centros de dados”.

Para Paulo Monteiro Rosa a concretização de qualquer um destes cenários pode implicar a “inversão” de uma forma “rápida” do sentimento dos mercados.

O economista sénior do Banco Carregosa considera também que um “corte significativo” nas despesas de capital (capex) por parte das grandes empresas tecnológicas (as hiperescaladoras) teria “um impacto imediato” porque todo o ecossistema depende desses investimentos.

Contudo este corte no capex das grandes tecnológicas ainda não se faz sentir, pelo menos a julgar pela guidance emitida por membros das Sete Magníficas, aquando da divulgação de resultados referentes à atividade dos últimos três meses de 2025.

A Alphabet (proprietária na Google) prevê que as suas despesas de capital se situem entre os 175 mil milhões de dólares e os 185 mil milhões de dólares (147 mil milhões de euros e 155,4 mil milhões de euros), em 2026, podendo mesmo dobrar face ao período homólogo. A Amazon prevê um valor ainda maior. 200 mil milhões de dólares (168 mil milhões de euros), em capex, para este ano, face aos 131 mil milhões de dólares (110 mil milhões de euros) de 2025. A Meta espera ter entre 115 mil milhões de dólares e 135 mil milhões de dólares (96,6 mil milhões de euros e 113,4 mil milhões de euros) em despesas de capital.

Microsoft, Meta, Alphabet, e Microsoft devem ter despesas de capital a atingir os 700 mil milhões de dólares (588 mil milhões de euros), mais 60% face a 2025, pelas contas da CNBC.

“Outros triggers (gatilhos na tradução portuguesa) possíveis incluem problemas de financiamento nas startups de inteligência artificial, falhas técnicas graves em modelos amplamente utilizados, choques energéticos ou regulamentação que aumente custos de forma súbita”, defende Paulo Monteiro Rosa.

Paulo Monteiro Rosa diz que “alguma eventual falha de tesouraria” poderia abrandar os investimentos em IA e travar os máximos consecutivos das bolsas.

“Também os máximos históricos consecutivos do ouro [que foram acontecendo ao longo deste ano] mostram que os investidores procuram diversificar os seus investimentos para além da IA. Qualquer desaceleração nas bolsas, ou queda, pode inverter o atual ciclo virtuoso de subida e transformá-lo num ciclo vicioso de descida”, refere o economista.

Paulo Monteiro Rosa salienta que o cenário “mais provável” não é um colapso total, mas sim uma “correção parcial, concentrada” nos segmentos mais inflacionados.

“A parte estrutural da IA, aquela que já está integrada nos processos empresariais, tende a continuar a crescer mesmo que haja ajustes no mercado, à semelhança do que aconteceu com a internet e toda a infraestrutura à sua volta”, salienta o economista.

Investimento em IA deve ser lucrativo para algumas empresas

Com o investimento por parte das grandes empresas a aumentar na área da IA coloca-se a questão: Será que ele se tornará lucrativo? No entender do economista sénior do Banco Carregosa o investimento em IA e na infraestrutura associada “será lucrativo” para algumas empresas, mas não para todas, e não à velocidade que o mercado está a descontar hoje.

“As grandes tecnológicas que têm produtos amplamente consumidos, bases de utilizadores gigantes, base de clientes globais e margens elevadas (cloud ou nuvem, publicidade, software empresarial, e-commerce) conseguirão transformar mais facilmente esse capex em mais receita, mas nada garante que consigam compensar as expectativas elevadas que o mercado acionista desconta atualmente”, considera Paulo Monteiro Rosa.

O economista identifica dois locais onde o risco deve aumentar. Um deles está no excesso de capacidade que pode surgir se os centros de dados (data centers na tradução inglesa) e GPU forem “construídos mais depressa” do que a adoção real da IA pelas empresas.

“Parte desse investimento vai ter retornos muito abaixo do esperado”, alerta Paulo Monteiro Rosa.

O outro local encontrar-se-ia nos players que “não têm modelo de negócio sólido e dependem de dívida ou de capital de risco” para financiar apostas gigantes em infraestrutura. “Nesses casos, o investimento em IA pode transformar-se mais num custo sunk do que numa alavanca de crescimento. Em suma, para os gigantes bem posicionados o investimento em IA tende a ser lucrativo a prazo, mas não está garantido, e para uma boa parte dos restantes é bastante provável que fiquem com uma fatura pesada e retornos medíocres”, alerta o economista do Banco Carregosa.