Longe dos assuntos que não estão na ordem do dia – e numa palestra que proferiu na Porto Business School – o ministro dos Negócios Estrangeiros, que revela sempre um conhecimento histórico-geográfico desgraçadamente incomum entre os seus pares, disse que a relevância de Portugal em termos diplomáticos será assegurada na medida em que souber avaliar a transferência do peso geopolítico do Atlântico para o Indo-Pacífico.
Falando para uma audiência de consultores e futuros consultores em geopolítica, Paulo Rangel recordou que esta transferência não é nova – isto é, não começou com a ‘era Donald Trump’ (que não nomeou) – mas, por isso mesmo, implica uma resposta do país em termos de diplomacia. Sendo “Portugal um país rodeado por mar e por Espanha por todos os lados” e tendo a frente atlântica – que alimentou a diplomacia e a visão periférica do país durante séculos – perdido preponderância, resta-nos seguir o ‘sentido do vento’ e instalar interesses no Indo-Pacífico.
É isso, afirmou, que está a fazer enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros: a 27 de fevereiro passado – um dia antes do início do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão – estava em Hanói, capital do Vietname, para abrir a representação diplomática portuguesa; vai reabrir a representação nas Filipinas, a que possivelmente se seguirá a Malásia; em Goa, o consulado passa a ter uma chefia de missão; abrirá um escritório consular em Katmandu, Índia; abriu um em Bacu, no Azerbaijão; possivelmente um outro surgirá em Sidney, na Austrália.
“Temos um branding fantástico”, disse, para revelar que nessas paragens longínquas sobrevive um conhecimento de Portugal e dos portugueses que por vezes não se encontra nem em países “que lidam connosco todos os dias”. São países aos quais o (um) chefe da diplomacia não tem de ir munido com um mapa para explicar onde fica Portugal. São relações exteriores que nem sempre foram isentas de conflito – quase nunca o foram, mas Rangel ‘saltou’ essa parte – mas criaram memórias que permitem ‘olear’ de forma simples, rápida e eficaz, relações bilaterais que importa conservar e, em alguns casos, reavivar.
É esse o segredo, disse: passar deste bilateralismo para um multilateralismo (muito em desuso, o que é necessariamente momentâneo) que permita a Portugal manter a sua relevância diplomática. E não perder a história: de pequena potência atlântica, que era até há uns dias atrás (em termos de tempo histórico), o país pode passar a ser um ‘intruso’ conhecido, um ‘velho conhecido’, que pode assumir mediações, negociações e representações em detrimento de potências – algumas maiores, outras mais incisivas – que precisam de mapas para chegarem a países de que só ouviram falar. Ou nem isso – mas Rangel voltou a não nomear Donald Trump.
E Paulo Rangel, revelando pensamento analítico, criou mesmo um termo para designar esse desígnio: “um multilateralismo ‘bilateralizado”. Ou, dito de outra forma, através de relações bilaterais, Portugal deve estabelecer uma teia multilateral, em que o todo há de ser bem mais que a soma simples das partes. Tudo isto gastando-se apenas “um ou outro milhão” que sobeje de uma banda qualquer. Por exemplo da Defesa – matéria em relação à qual a aptidão para gastar rios de dinheiro está em alta, mas que será inevitavelmente menos eficaz num qualquer processo de instalação de relações diplomáticas seguras, perenes e eficazes. “Todos os estados pequenos e médios estão mais sozinhos”, explicou, para concluir que não lhe passava pela ideia estar a ser nacionalista. Por uma razão simples: “ser português é sempre ser universalista”.
Depois da ‘aula’, bastamente aplaudida por uma audiência que manifestava saber de memória as coordenadas GPS de Kuala Lumpur, Katmandu ou qualquer outra localidade a muitos quilómetros a leste dos Urais, Paulo Rangel voltou à sua função de ministro: perante um batalhão de jornalistas que possivelmente se preparavam para o ‘bombardear’ com perguntas sobre o Irão, as Lages ou a serôdia subserviência do país aos comandos emanados de Washington, mandou as tropas anular a prontidão: não haveria declarações.