Numa era em que os negócios globais enfrentam uma concorrência marcada por divisões geopolíticas, tecnológicas e sociais, os principais riscos para Portugal combinam vulnerabilidades internas e choques externos. “A nível nacional, e de acordo com o “Executive Opinion Survey”, os principais riscos para Portugal resultam da combinação de vulnerabilidades económicas e estruturais internas com choques externos de natureza geopolítica e informacional, reforçando a importância de políticas públicas e estratégias empresariais focadas na resiliência, na gestão integrada de riscos e no reforço do capital humano”, diz Rodrigo Simões de Almeida, CEO da Marsh Portugal, ao Jornal Económico. De acordo com o estudo (que concentra a visão de mais de 1.300 especialistas e 11 mil líderes empresariais), o top cinco para o nosso país é o seguinte: abrandamento económico (economic downturn); insuficiência de serviços públicos e de proteção social; escassez de talento e de mão-de-obra qualificada; confrontação geoeconómica e desinformação e informação falsa.

A nível internacional, os líderes empresariais globais enfrentam riscos crescentes, uma vez que se prevê que o aprofundamento das divisões geopolíticas, juntamente com os crescentes desafios tecnológicos e sociais, continuará a moldar o panorama empresarial nos próximos 12 meses. Esta é a opinião de gestores de topo da Marsh líder global em risco, resseguro e capital, pessoas e investimentos, e consultoria de gestão, e do Zurich Insurance Group (Zurich), seguradora multi-ramo líder a nível mundial e prestadora de serviços de resiliência, que comentam as conclusões do Global Risks Report 2026, do Fórum Económico Mundial. “O grande tema que define o relatório de 2026 é a “incerteza”, tendo os inquiridos demonstrado uma visão negativa quanto ao futuro, antecipando um mundo mais volátil e menos previsível, tanto nos próximos dois anos como na próxima década, o que coloca pressão adicional sobre os sistemas de governação, as economias e a coesão social. O relatório prevê um contexto global mais fragmentado, com menor cooperação internacional, maior rivalidade geoeconómica e uma interligação entre riscos crescente. No curto prazo (2 anos), dominam os riscos sociais; no longo prazo (10 anos), os riscos ambientais assumem um peso claramente superior. A principal conclusão do Global Risks Report 2026 é que este ano marca o início da “Era da Competição”, caracterizada por incerteza estrutural crescente e maior competição entre Estados, empresas e blocos económicos. Os conflitos geoeconómicos surgem como o principal risco global para 2026, subindo oito posições na perspetiva a dois anos”, acrescenta Rodrigo Simões de Almeida.

Embora o confronto geoeconómico, os conflitos armados interestatais, os eventos climáticos extremos, a polarização social e a desinformação e informação falsa tenham sido identificados pelos inquiridos como os cinco principais riscos imediatos em 2026, a desinformação e informação falsa e a polarização social subiram para o segundo e o terceiro lugares na perspetiva de dois anos. “O destaque atribuído à desinformação e informação falsa, bem como à polarização social, não é novo, sendo que estes riscos ocupavam já o top cinco no relatório do ano anterior.

Este destaque reflete a perceção de que estes riscos representam ameaças imediatas à estabilidade social, política e institucional. A erosão da confiança nos meios de comunicação, nas instituições públicas e nos processos democráticos cria um terreno fértil para a propagação de conteúdos falsos (ou manipulados). Esta desinformação vem intensificar as divisões sociais e políticas, dificultando assim a construção de consensos e a tomada de decisões coletivas. É importante mencionar que o relatório enquadra estes riscos como parte de um agravamento mais amplo da fragmentação social, potenciado pelas plataformas digitais e por contextos de incerteza económica e geopolítica”, acrescenta o CEO da Marsh Portugal.

De acordo com o relatório, os avanços na inteligência artificial (IA) e na computação quântica terão um grande impacto nos mercados de trabalho, nas estruturas sociais, nas infraestruturas e na geopolítica, podendo contribuir para o aumento das disparidades económicas globais. As infraestruturas críticas, expostas a várias ameaças, desde o corte de cabos submarinos à interrupção de satélites, também exigirão investimentos substanciais para a sua modernização. “Embora os impactos mais severos não sejam considerados imediatos, os riscos associados a resultados adversos da inteligência artificial sobem drasticamente no horizonte temporal a 10 anos (5.ª posição) quando comparado com o horizonte a dois anos (30.ª posição). A automação e a inteligência artificial são o motor para alterações profundas no mercado de trabalho, provocando a substituição de algumas funções, mas também a criação de outras. Assim, os próximos anos serão críticos para acelerar a nossa capacidade de adaptação a estes avanços tecnológicos, o que deverá acontecer não apenas ao nível das empresas, mas também dos sistemas educativos e das políticas públicas. Uma gestão não integrada poderá potenciar o agravamento de desigualdades, tensões sociais e a perda de confiança nas instituições. No que se refere à computação quântica, apesar dos riscos envolvidos que devem ser geridos, seria muito importante que Portugal estivesse na linha da frente a nível europeu. É ainda possível sermos um dos primeiros países europeus a ter capacidade própria de computação quântica, numa lógica de investimento público-privado, contribuindo de forma significativa para a competitividade do país a longo prazo”, explica Rodrigo Simões de Almeida.

O relatório alerta ainda que a disrupção de infraestruturas críticas é um risco fortemente relacionado com outros riscos de maior expressão, funcionando como um intensificador do impacto dos mesmos e amplificando um efeito em cascata. “Estruturas envelhecidas, dependência digital e eventos climáticos extremos são fatores que contribuem para a vulnerabilidade de sistemas essenciais como a energia, a água e as comunicações”, conclui o CEO da Marsh Portugal.