“Quando cai o céu vermelho, os paradigmas oscilam entre a divina providência, a doutrina da ciência, o oráculo da informação e novos mitos obscurantistas”. Poderá ser esta uma síntese do trabalho de Alexandre Estrela, que representa Portugal na 61.ª Bienal de Arte de Veneza? Será redutor ficar por aqui.

Esta nova instalação do artista português desenvolvida a partir de uma obra homónima, de 2019, funciona agora como um sistema operativo para novos seres digitais, que pretende dialogar com o tema da Bienal: as ‘escalas menores’ [In Minor Keys]. Com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, a pergunta que se impõe fazer é: que céu vermelho é este? Um espelho que reflete os movimentos laterais registados pelos sismógrafos, “enquanto a humanidade inscreve fraturas ambientais e sociais na crosta terrestre.” Qual a pertinência? As convulsões tectónicas abrem fissuras, no solo, mas também no pensamento. Como tal, RedSkyFalls propõe uma forma de “experienciar estas ruturas através da observação de um sistema que reage, em tempo real, a eventos de magnitude geofísica, próximos e longínquos”, lê-se em comunicado.

A geopolítica é chamada à colação. A violência da guerra não é apenas aquela que se exibe através da destruição de “alvos” – militares e outros. No contexto da Guerra Fria, e perante a ameaça nuclear, redes sensoriais animais e humanas foram mobilizadas como bio-sentinelas para a monitorização sismológica. Demasiado permeável à interpretação do fenómeno de exceção, esta via de investigação perdeu impulso a partir de meados da década de 1990, mitigando a visão holística do terramoto enquanto um conjunto de fenómenos geofísicos, socioambientais e sensoriais. RedSkyFalls recupera esta sensibilidade, deslocando o ponto de observação para um ecossistema artificial.

Detalhe nada despiciendo. RedSkyFalls expande-se a geografias fortemente sísmicas, onde a peça responde com maior sincronia aos eventos tectónicos. Como em Veneza, estas extensões reagem à atividade sísmica a partir de São Francisco (The Wattis Institute), Lima (MALI), Los Angeles (REDCAT) e Lisboa (Galeria Zé dos Bois), à espera de um novo abalo desde 1755.

Não se faz a apologia da tragédia. Questionam-se comportamentos humanos, buscam-se alternativas comportamentais, a elasticidade da adaptação. Durante os sete meses de exposição em Veneza, haverá um programa paralelo para uma leitura mais vívida da instalação de Alexandre Estrela. O programa Survey On An S Wave, concebido por Marco Bene, integra conversas, concertos, happenings e projeções, ao qual um Arquivo Sísmico Portátil se irá juntar, para introduzir temporariamente outras obras e artistas, para assim abrir e fechar “fendas” em RedSkyFalls.

É precisamente nesse espírito que se convocam pensadores e criadores – e se desafiam os visitantes – a habitar a instabilidade, numa lógica inversa ao inquérito pombalino ao terramoto de Lisboa de 1755, que procurava terreno firme. Aqui, o programa reconfigura esse questionário como “um dispositivo especulativo para entrar na RedSkyFallsologia: uma ciência incerta, anti-utilitária, atenta às subtis oscilações entre imagem, matéria e percepção.”

Programa Survey on an S Wave | maio a novembro 2026 | Curadoria de Marco Bene

Fondaco Marcello e Cinema Galleggiante, Veneza; eventos das 18h às 22h

Transmissão em diferido na RTP/Antena 2 (Portugal)

Parte I – Presságios & Tremores

10 maio 2026

Giovanbattista Tusa (conferência / performance); Miguel Abreu (concerto)

11 maio 2026

Marco Bene: Arquivo Sísmico Portátil I (visita performativa)

Parte II – Entropia & Elegia

15 junho 2026

Marco Bene: Arquivo Sísmico Portátil II (visita performativa)

Stanley Schtinter (projecção de filmes / performance)

Parte III – Água & Abismo

9 setembro 2026

Alexandre Estrela: Ruin Marble (instalação com activação sonora ao vivo por Gabriel Ferrandini)

Apresentado no Cinema Galleggiante www.cinemagalleggiante.it/en

10 setembro 2026

Laia Estruch (performance aquática sonora); Gavin Bryars (concerto)

14 setembro 2026

Marco Bene: Arquivo Sísmico Portátil III (visita performativa)

Parte IV – Ecos & Silêncio

1 novembro 2026

Walter Benjamin: Histórias Radiofónicas para crianças: O Terramoto de Lisboa (1929–1932) – sessão de leitura por Nu No

Marco Bene: Arquivo Sísmico Portátil IV (visita performativa)

Post Brothers (apresentação / conferência)

Nu No (concerto / performance)

Parte V – Cinzas & Reparação

13 novembro 2026

Von Calhau! (performance); Giulia Vismara (concerto)

14 novembro 2026

Charlemagne Palestine (concerto / performance)

16 novembro 2026

Marco Bene: Arquivo Sísmico Portátil V (visita performativa)

Jason Fulford (apresentação / conferência)

SISMO-SINAL

Maio a novembro 2026 – Galeria Zé dos Bois, Lisboa

Sismo–Sinal é um programa de mediação e criação que propõe uma aproximação experimental à peça, experienciada à distância e em sincronicidade com a instalação apresentada em Veneza. Através de uma Réplica, instalada na Galeria Zé dos Bois, que também reage à atividade sísmica, ao longo dos sete meses de exposição, organizam-se workshops e visitas guiadas, em colaboração com o Serviço Educativo da Galeria ZDB.

23 maio – 22 novembro 2026

Réplica Exposição sincronizada com a instalação em Veneza

Visitas guiadas (5 por mês)

Visitas guiadas acessíveis (2 por mês)