A gestora de ativos Rothschild considerou, na quarta-feira, que as consequências económicas do conflito no Médio Oriente vão depender da capacidade de fornecimento de petróleo e gás dos países desenvolvidos e, portanto, da magnitude do aumento dos preços dos combustíveis fósseis, bem como da duração desse aumento.
“A sensibilidade estimada de um aumento de 10% nos preços da energia é de 0,1 pontos percentuais na inflação nos Estados Unidos e de 0,2 pontos percentuais na zona euro, num horizonte de três meses. Em termos de crescimento, a inflação inerente ao aumento dos preços da energia reduz o poder de compra das famílias e aumenta o défice comercial, principalmente no sector energético. É de notar, no entanto, que, graças à sua posição como maior produtor mundial de petróleo e gás, o impacto nos Estados Unidos é mais limitado. Na zona euro, os modelos sugerem uma queda de 0,1 a 0,2 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB)”, refere o general partner e Chief Information Officer (CIO) da Rothschild, Didier Bouvignies.
O general partner da Rothschild “não acredita” que se justifiquem paralelos com a grande crise petrolífera de 1973, após a Guerra do Yom Kippur, que levou a um aumento de quatro vezes nos preços do petróleo, ou com a Revolução Iraniana de 1979 e a Guerra Irão-Iraque de 1984, ambas responsáveis pela duplicação dos preços do petróleo.
“Em primeiro lugar, a Arábia Saudita tem capacidade para aumentar a sua produção, num contexto em que a monarquia se aproximou consideravelmente do Ocidente à medida que as suas relações com o Irão se foram deteriorando. Além disso, o peso da energia no PIB dos países desenvolvidos caiu para metade em comparação com as décadas de 1970 e 1980. No entanto, o impacto será mais pronunciado se o conflito se prolongar, dada a incerteza que gera”, explicou Didier Bouvignies.
Chances de descidas das taxas de juro “estão a diminuir”
Quanto aos mercados de rendimento fixo, Didier Bouvignies considera que as expectativas de um corte da taxa de juro por parte da Reserva Federal norte-americana (Fed) até ao final de Junho “estão a diminuir”, especialmente porque o banco central norte-americano “pareceu ansioso por agir preventivamente”, considerando que a inflação se mantém acima do objetivo. “Na zona euro, existem mesmo expectativas moderadas de uma subida da taxa de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE). A longo prazo, as projeções de inflação estão a pressionar as taxas de juro europeias para cima. Por conseguinte, estamos atualmente a observar uma subida em toda a curva de juros, o que está a afetar as avaliações das ações”, disse o general partner da Rothschild.
Didier Bouvignies acrescentou que durante conflitos recentes – a Guerra do Golfo em 1990-1991, o Iraque em 2003 e a Ucrânia em 2022 – que conduziram a aumentos dos custos energéticos, os mercados bolsistas “sofreram de facto correções, mas regressaram aos seus níveis iniciais com relativa rapidez”. Para o general partner da Rothschild atualmente a ligeira queda do mercado americano em dólares, e até uma subida em euros desde o início do conflito, em comparação com índices próximos dos seus máximos e avaliações elevadas, “não incentivam” o reforço das posições.
“A correção mais acentuada na Europa reflete as preocupações com o impacto nos preços do gás, que também servem de referência marginal para os preços da eletricidade e estão a conduzir a um aumento mais significativo dos custos da energia do que nos Estados Unidos, que beneficiam da sua posição como o maior produtor mundial de petróleo e gás”, salientou Didier Bouvignies.
“Os mercados europeus, que atingiram o seu pico antes destes acontecimentos, baseavam-se em previsões de crescimento dos ganhos por ação (EPS na tradução inglesa) de cerca de 12% para 2026, um cenário que poderá ser frustrado pela situação atual. Qualquer declínio acentuado representaria, contudo, uma oportunidade, pois, mesmo que exista uma incerteza significativa a curto prazo, uma resolução favorável de um conflito que já dura há mais de 40 anos permitiria à economia europeia beneficiar de preços do petróleo mais estáveis a longo prazo”, acrescentou o general partner da Rothschild.
Analisando o conflito que rebentou no Médio Oriente o general partner da Rothschild analisou alguns dos impactos desta guerra.
“O ataque israelo-americano ao regime iraniano teve repercussões evidentes no contexto geopolítico internacional e nos preços do petróleo, embora as exportações do Irão representem apenas 2% do consumo global. A resposta do Irão, mais intensa do que o previsto, visando em particular bloquear a passagem de petroleiros pelo estreito de Ormuz — por onde transitam 20% do consumo global de petróleo e das exportações de gás — teve um efeito mais significativo. Isto foi particularmente verdade, dado que o Irão também atacou as infraestruturas regionais em oito países árabes da região, incluindo refinarias na Arábia Saudita e instalações de gás no Qatar”, salienta Didier Bouvignies.
O general partner da Rothschild salientou que a situação levou a um aumento de cerca de 17% no preço do barril de petróleo e de 70% no preço do gás europeu, elevando os aumentos para 35% e 90%, respetivamente, nos primeiros meses de 2026. “De referir que o fornecimento de gás do Qatar, que interrompeu a produção, representa 8% do fornecimento europeu. Contudo, ainda estamos longe dos níveis observados durante o conflito russo-ucraniano, que, no seu auge, fez com que os preços do petróleo duplicassem e os do gás aumentassem seis vezes”, salientou o general partner da Rothschild.
Ao nível político, disse Didier Bouvignies, é “sempre difícil” encontrar uma solução para os conflitos armados. “O historial dos países ocidentais nesta área, seja no Iraque, no Afeganistão ou na Ucrânia, não os favorece claramente. Além disso, os objetivos de guerra do governo dos Estados Unidos não foram claramente explicados. É razoável supor que o objetivo seja instalar um novo regime político e frustrar as ambições nucleares do Irão, mas também aumentar a produção de petróleo e gás do país, dado que detém atualmente 10% e 15% das reservas globais, respetivamente. O Irão produzia sete milhões de barris por dia na década de 1970, em comparação com apenas quatro milhões atualmente”, descreveu o general partner da Rothschild.
“Os especialistas acreditam que as forças iranianas já estão significativamente enfraquecidas face ao poderio militar dos Estados Unidos, agravado pelas capacidades militares israelitas. Esta situação parece apontar para um rápido esgotamento dos meios de retaliação por parte do Irão. No entanto, os ataques aos países do Golfo foram uma surpresa e o risco de ataques no resto do mundo está a aumentar. A falta de forte apoio dos aliados históricos do regime — a China, agora penalizada pela quebra no fornecimento do petróleo iraniano, anteriormente barato, e a Rússia, que beneficia diretamente do aumento das compras chinesas e indianas — limita o risco de escalada”, considerou o general partner da Rothschild.