Entre Vila Nova de Gaia e a sede da Toyota no Japão distam 11 mil quilómetros. Mas as duas cidades vão ficar para sempre ligadas. O nome Salvador Caetano ficou no imaginário popular nacional por ter figurado durante décadas em todos os Toyotas que circulavam em Portugal, por ser o importador exclusivo. E das linhas da fábrica de Ovar saíram modelos populares durante décadas como o Corolla, a Hilux ou a Hiace.
A empresa foi fundada há 80 anos por Salvador Fernandes Caetano, que começou a trabalhar aos 11 anos e que aos 20 abriu a sua própria empresa, de produção de carroçarias de autocarros. A ligação à Toyota foi crucial para o seu crescimento, mas a Salvador Caetano deixou de ser uma companhia ‘nipónica’ há muito.
O negócio cresceu e multiplicou-se: da venda de automóveis, ao fabrico de autocarros, até à produção de componentes para aviões da Airbus.
A companhia gerou um volume de negócios de 4,3 mil milhões em 2024, com o EBITDA a ser de 318 milhões. Presente em 48 países, emprega quase nove mil trabalhadores, com 66% destes em Portugal e 21% em Espanha.
Já a Toyota Caetano produziu 260 veículos APM – Acessible People Mover em Ovar para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Paris em 2024. Nesta fábrica, continuam a ser produzidos o modelo Toyota Land Cruiser Serie 70 que vende os históricos jipes para o mercado africano, onde são cobiçados.
No ramo de venda de automóveis, a Salvador Caetano Auto é o maior retalhista automóvel ibérico com 150 pontos de venda em Portugal e Espanha. E tem andado às compras.
Em 2025, fechou a compra da maioria do capital do Multimoto Group, importador e distribuidor grossista de motociclos. Já este ano, comprou um dos maiores distribuidores automóveis da Irlanda, a Cedar Motor Group. Um negócio avaliado em 100 milhões de euros por fontes do setor citadas pelo “Irish Times”. A empresa celta distribui as marcas Nissan, Renault, Dacia e Alpine e vende diretamente Peugeot, Opel, Mazda, Citroen e Suzuki. Os anteriores donos eram a família al-Babtain do Kuwait.
Para este ano, o foco da Caetano Auto é o crescimento na Europa.
“A estratégia da Salvador Caetano passa por reforçar as regiões europeias onde estamos presentes”, revela fonte oficial do grupo ao Jornal Económico.
Também no início deste ano, a Salvador Caetano Auto anunciou uma aliança estratégica com a chinesa Neolix Technologies, que é líder mundial no fabrico de veículos logísticos autónomos, conhecidos por RoboVans. A ideia é acelerar a “expansão” da Neolix na Europa através da exploração de oportunidades na “mobilidade inteligente” e para “impulsionar a modernização dos ecossistemas de logística autónoma em Portugal e além-fronteiras”.
Curiosamente, a Caetano Auto também representa as marcas chinesas BYD, Xpeng e Dongfeng em Portugal.
Em 2024, vendeu mais de 167 mil unidades: 55% em Portugal, mais 21% em Espanha, 8% na Dinamarca, 7% na Hungria e 6% na Suécia. Entre as suas marcas mais vendidas está a Renault/Dacia/Alpine com mais de 45,7 mil unidades, a Toyota/Lexus com mais de 24 mil unidades e a BMW/Mini com mais de 13,6 mil.
Ao nível da produção industrial, o líder da Toyota Caetano já destacou o “peso dos custos sobre o trabalho praticados em Portugal”, com o país a registar uma média de 42,3% de carga fiscal e contributiva sobre o custo do trabalho, “um dos mais elevados da OCDE e significativamente acima da média, de 34,8% (…) evidenciando a elevada carga fiscal sobre o rendimento do trabalho em Portugal face a outras economias concorrentes”, escreveu José Ramos no relatório e contas de 2024.
O método de produção da Toyota continua a dar cartas e deu origem ao Toyotismo: produzir sob encomenda, evitando a acumulação de stocks, eliminado desperdícios, aliado a um controlo de qualidade rigoroso sob o mote do ‘kaizen’, palavra japonesa para melhoria contínua.